Eu te ofereço

Eu te ofereço a dor dos naufrágios sem poesia,

a dor dos homens que se debateram inutilmente

na longa noite do mar.

Eu te ofereço o mistério desses barcos que se perderam

na fúria das arrebentações,

no passar dos furacões,

e adormeceram insepultos no fundo dos oceanos.

Eu te ofereço o derradeiro grito

dos marinheiros que pereceram

pensando nos filhos em casa.

Eu te ofereço sobretudo o silêncio desta longa noite

que é como um vazio incomensurável

que se desprende da terra e ecoa pelos séculos:

o silêncio das velas que partiram e nunca mais voltaram,

o silêncio das saudades nunca saciadas,

o silêncio das mensagens nunca transmitidas.

Mas também te ofereço os abraços daqueles que chegaram

e a palavra daqueles que não sucumbiram.

Também te ofereço o bolsão das velas pandas no azul das enseadas

e o despertar dos mastros no horizonte das esperas…

E o arriar de panos

e o entrar de cabos

e o largar de ferros

e o descer de pranchas

e o sorrir tão largo, esse sorrir selvagem,

milagroso, límpido,

do marinheiro.

Eu te ofereço definitivamente esse sorriso:

gerado no ventre dos furacões,

crestado no sol dos mormaços,

alimentado na dor dos naufrágios.

Essa manhã de paz que vem como uma bênção

do coração do mar e que estremece a terra.

Lucimar.

Natal, 11 de novembro de 2018.

 

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Tempestade acalmada

Hoje, transcrevo meu soneto que recorda Quem, na Verdade, acalma as tempestades.

Tempestade acalmada

Mestre, não te importa que pereçamos? Mc 4,38.

E aqui estamos nós, na imensidade,
Sob a força do vento, em agonia,
De sofrimento e morte, em pleno dia
Açoitados de mar, de tempestade…

Não te importa ficarmos sem vontade,
Perdidos no oceano, nesta via,
Sem retorno, sem rumo, sem valia,
Sem socorro, sem dó, sem piedade?

Por que dormes tranquilo, em sono santo,
Indiferente ao mar e a nosso espanto,
Na agitação raivosa do oceano?

Não tendes fé? – pergunta com firmeza.
E dá ordens à rude Natureza,
E ela obedece à voz do Soberano!

Natal, 29 de outubro de 2018,
Lucimar.2008-10-03 20.05.05-17

Busca

“O Mar não guarda os vestígios das quilhas que o atravessaram. Cada marinheiro tem a ilusão cordial do Descobrimento”. (Luís da Câmara Cascudo, no Prefácio do meu livro “O Mar e Outras Descobertas”, editora José Augusto, 1968).

Procuro a palavra que me descreva
este profundo, lúcido e desperto
atlântico-sulíssimo, em tom de azul.

Meço o silêncio que há no ar
enchendo meus pulmões e minha alma
de uma vontade doida de voar, voar, voar,
até morrer.

Firo esse espaço que me expande ao céu,
no desencontro da tarde entorpecida,
entre nuvens volúveis
e réstias de luz.

Ouço o tempo que passa no bater de sinos,
em suas horas lentas,
por vigias de camarotes e lágrimas furtivas.

Navego este navio: meu destino sem norte
buscando o norte do destino
a direção dos meus passos,
a esperança.

E, no ritmo trôpego das ondas,
o Mar, o eterno Mar, o imenso Mar,
embala definitivamente
minha insolúvel e inexplicável
solidão.

Abraço afetuoso a todos,
Lucimar.

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Olhar luminoso

Se eu tivesse o estro dos grandes poetas, 
de suas vozes que ecoam ainda na amplidão
em espaços de alma, como explosões de estrelas,
atravessando o universo, em caminhos de sonho…

Se eu tivesse a voz afinada dos magníficos cantores,
harmoniosas como o canto de pássaros no abismo,
em infinitos ecos que incessantemente se repetem,
enchendo os corações de ternura e calma e alegria…

E ainda se eu tivesse a inspiração dos músicos,
da clássica textura de acordes celestiais,
aqueles que até hoje são ouvidos em toda parte,
com a reverência que se devota aos santos nos altares…

E mais ainda se eu pudesse criar como os gênios,
as máquinas e os métodos, a ferramenta e a forma
que tornam este mundo maravilhoso e mágico,
avançando entre sombras no infinito para a glória…

Ainda assim e mesmo assim não poderia ser feliz de verdade,
se, apesar de tudo isso, eu tivesse que perder, por um momento,
o olhar luminoso do amor que me incendeia,
quando aquela mulher que me quer desmaia em gozo…

Lucimar.

Natal, 6 de novembro de 2017.

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O Amor que se revela

O amor que se revela

 

No coração do Pai canta o Amor.

Com Ele estão o Verbo, gerado, não criado,

e o Espírito que sopra sobre as águas.

É o Amor primordial, Trinitário,

que nos criou do nada.

E que nos fez casal, homem-mulher,

fecundos e multiplicantes.

 

E o Pai nos deu, de graça,

todo fruto de toda árvore

do maravilhoso jardim,

menos aquele que nos destruiria.

E desobedecemos.

E perdemos a Vida que jorrava

das fontes daquele Paraíso.

 

Mas Ele nos prometeu Maria

para esmagar a cabeça da serpente.

E abençoou Noé, para salvar a Terra.

E jurou descendência a Abraão,

incontável como as estrelas do céu.

E enviou Seu Anjo para salvar Isaac.

E livrou José da morte

e glorificou seu exílio.

 

Ele viu a miséria de Seu povo na terra do Egito

e o resgatou.

E apareceu a Moisés na sarça ardente.

E lhe disse o Seu nome: EU SOU.

Ele livrou seus primogênitos da morte

na passagem do Anjo.

E fez Seu povo atravessar o Mar Vermelho.

 

No coração do Pai canta o Amor.

Ele pôs Sua lei em nosso seio

e a inscreveu em nosso co­ração.

Ele perdoou a nossa culpa

e não se lembrou mais de nosso pecado.

E enviou para nós Seu Filho único,

o Amor em pessoa,

não para nos dar a morte,

sim, para nos dar a Vida,

perdão, misericórdia, compaixão.

 

Que escutou o pedido de Sua Mãe

e transformou a água em vinho.

E prometeu à Samaritana água viva

e perdoou a Mulher Adúltera.

 

E acolheu os pecadores,

de prefe­rência aos que se julgavam justos.

Pois não veio para julgar, mas para salvar.

Teve pena do povo cansado, abatido,

ovelhas sem pastor,

dos alquebrados sob o próprio fardo,

e ofereceu-lhes descanso

e lhes transmitiu a paz.

 

E curou cegos, surdos, coxos,

leprosos, paralíticos,

do­entes do corpo e da alma,

oprimidos, desprezados e abandonados.

 

E saciou a multidão faminta

com o pão multiplicado,

pro­messa de um novo Pão,

de Vida eterna.

 

E teve compaixão do cego Bartimeu,

que o chamava de Filho de Davi.

E de Dimas, o Ladrão,

que roubou o céu, tocado pela graça.

 

E ressuscitou dos mortos e ascendeu ao céu,

para nos sentar, com Ele,

à direita do Pai.

 

No coração do Pai canta o Amor.

Amor que é também Filho,

e que se fez humano como nós.

Amor que é Espírito Santo,

Aquele que nos ensina

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Segno di Eternità

Questo pomeriggio, ero con il mio amico, fratello Lucimar Luciano de Oliveira, un buon poeta. Ho fatto una versione italiana di una delle sue poesie che aveva portato a casa mia. Penso che abbiamo un buon risultato. Vedi!

SEGNO DI ETERNITÀ

Da tempo, si è esplorata la bellezza del mare,
Ma io mi tuffo nel suo silenzio.
Il silenzio del mare passa attraverso di me
Come segno di eternità.
L’uomo che ritorna al mare
È l’uomo che ritorna alla sua origine,
Alla sua solitudine fondamentale.
In mare, ho risolto
Come in casa mia.
In mare, mi sono trovato
Come nel mio castello interiore.
Sono stato santo,
Sono stato un poeta,
Sono stato l’uomo
In mare, il mio ermo,
il mio cielo,
il mio regno.
In lui, ho scritto la poesia
della mia libertà
perché tutte le porte del mare erano aperte a livello del mare,
tutte le porte del mare erano diventate leggere come il vento,
tutte le porte del mare erano diventate bandi di sincerità.

Lucimar Luciano de Oliveira
Versão Italiana de Roberto Lima de Souza

Caminhos

Depois de muito tempo sem publicar, eis um novo poema, que acabo de produzir, inspirado pela viagem de minha amada Edna, a São Paulo, para um compromisso de família.

Na verdade, havia um antigo projeto de poema, que serviu de base para a elaboração deste. Mas a emoção da distância e da saudade promoveu uma nova forma poética.

Caminhos

Quero aprender teus caminhos,
perguntar por onde andas,
descobrir tuas estradas,
percorrê-las todo o tempo…

Quero saber dos teus passos,
de tuas horas e sonhos,
pra onde olham teus olhos
e o que me dizem teus gestos…

Quero ser bom marinheiro,
a conduzir meu navio
para chegar nos remansos
dos teus abraços serenos…

Quero banhar-me de chuva
nas ruas da tua infância
e brincar nas avenidas,
nas calçadas dos teus sonhos…

Quero cantar sob a lua
as canções de tua escolha,
que se cantavam de noite
no crepitar das fogueiras…

Quero dizer mil palavras
que soem como poesia
e que conquistem sorrisos
do teu rosto confiante…

Quero ouvir os teus segredos
que ninguém mais ouviria
e as histórias inventadas
por teu coração ardente…

Quero rezar de mão dada
contigo, junto da cama,
ajoelhados, contritos,
como as avós ensinavam…

Quero, enfim, viver contigo
no aconchego, em nossa casa,
e caminhar teus caminhos
até o final dos meus dias!

Lucimar Luciano

Natal, 31 de julho de 2017.

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