Tributo aos filhos

Tributo aos Filhos

O grande poeta Carlos Drummond de Andrade sentenciou: “Não faça versos sobre acontecimentos”. Magister dixit: abaixo a poesia circunstancial. A isso estávamos condenados, mesmo que as peças do dia a dia, a casa, o trabalho, a rua, os vizinhos, a cidade, o mundo, fossem os únicos modelos disponíveis.

Quando minha filha Liana, a primogênita, nasceu, eu escrevera:

Para cada momento existe uma só e única poesia:
a impossível
a inefável poesia que vem de Deus.

Neste momento, alguma coisa além de mim
me liga inexplicavelmente
ao coração franzino e meigo de minha filhinha.

Acho que é a poesia única
sobre a face da terra.

No final da década de 1960, contrariando o mestre, eu pecava por ignorância. E expressava, em versos despretensiosos:

A paz das coisas arrumadas,
das tarefas terminadas,
da mesa posta.
A paz das palavras ditas,
do silêncio guardado,
da ofensa esquecida.
Mas, sobretudo, a paz das eternidades,
a paz do amor.

Voltando de Salvador, em março de 68, trazia um poema para meu filho Mauro. Com seu jeito distraído, rompia as convenções. A gente se desdobrava em preservar aquela vida iniciante:

O dia inteiro ele brincou,
correu, caiu, chorou, sorriu…
O dia inteiro ele gastou
na inquietação ingênua de suas traquinadas,
levou palmadas da mãe, o pai brincou com ele,
correu na rua, quase foi atropelado…
Comeu depressa,
porque tinha muita pressa de viver a sua vida…

Novamente caiu, novamente chorou, novamente sorriu,
e a noite foi chegando devagar e ele devagar foi-se apagando,
como um balão no céu foi-se apagando,
e caindo, e caindo, e caindo, e caindo
e sorrindo, e sorrindo, e sorrindo, e sorrindo…
Nada mais lhe doía, nada mais o apressava,
era tudo tão manso, era tudo tão calmo…

E assim ficou, até que amanhecesse,
assim sorrindo como uma vela ao vento,
até que todos os balões se apagassem,
até que todos os violões da noite silenciassem,
e eu, pai, ao seu lado adormecesse, viajante e só,
oceano adentro, a bordo de um sorriso!

Quando passei a estudar regularmente literatura, em faculdade de letras, não tinha desculpa. Tinha que transpirar, suar a camisa, buscar o ritmo, a rima interna, as aliterações. E eu seguia a norma, obedecia às exigências do meu tempo. Quem me libertou dessa cadeia? Creio que, mais uma vez, meus filhos. Um dia, eu iniciara um poema…

Foi o tempo que passou
foi a vida que passou
foi a morte que passou…
Tão perto a morte passou…
A tarde era fria, a tarde era triste, a tarde era feia
e eu tão sozinho na tarde!

Como lá longe um grito, longe um grito,
grito, grito, grito, grito, grito, grito,
ainda um grito.

Mas era tudo uma dor, um silêncio,
uma vontade de sonho…
E todos buscavam na tarde
um momento de sonho…
E havia tudo em todos e todos tinham tudo…
E eu tinha tudo e todos:
tinha, tinha, tinha, tinha, tinha, tinha.

Marcelo entrou na sala. Correndo, a criança de cinco anos rompia o silêncio e a concentração que me envolviam. Havia um raio de sol na janela, aberta de par a par. Seus cabelos ficaram momentaneamente louros, do sol impertinente.

Não, não era bem assim.
Depois um pássaro, uma criança, um momento,
tenho certeza: pássaro.

Criança, música, janela, estava tudo aberto.
O vento soprou seus cabelos,
o sol bateu no chão, como um gesto.

Ali ficamos os dois, a criança-pássaro e eu. No átimo, no espaço de uma janela. O vento nos cabelos. O sol no chão.

E foi-se o sol, na tarde, foi-se embora,
nunca mais o momento passou, foi-se embora,
o momento ficou, foi-se embora.

Depois a criança vestida de sol,
vestida de sonho, vestida de vida,
e eu tão-nu, tão-nu, tão-nu, tão-nu, tão-nu.

Que poderia restar do pai ressuscitado? Que poderia restar da dor transfigurada?

E, de repente…
Não, não foi de repente.
Eu me nasci do fundo das tristezas da tarde
e me fiz leve, leve, leve
como uma lágrima,
e me chorei (baixinho) fundamente,
e me parti no peito (dentro do peito):
menino, sol, silêncio, dor, deserto,
pássaro ferido.

E eu não sabia, ah eu não sabia, então, que este era um poema premonitório, pois os anjos falam-nos por enigmas, não por sinais perfeitos, de leitura fácil. Marcelo veio a falecer em 1998, preso à bomba de sucção da piscina de crianças do América, na Rua Campos Sales, num sábado comum, quando se divertia com a família. Logo ele, mergulhador profissional, campeão paulista de natação aos 14 anos, chamado a nadar pelo Flamengo em 1981, quando voltamos de São José dos Campos! Surpresas da vida!

Quando Ana nasceu, em agosto de 74, eu já saíra da faculdade. Estávamos novamente em Natal. Eu era assistente do Comandante Naval.

Vi quando trouxeram a menina da sala de parto, logo depois de nascer. A enfermeira a segurava nas mãos suspensas, como uma oferta preciosa ao mundo. Fiquei ali, esperando que a pusessem no berçário. Através da vitrine, podia agora examiná-la em detalhe.
Era uma viajante do espaço sideral, que pousava na terra. Um raio de alegria que descia ao chão do berço. Olhei-a com ternura. Que terei pensado? Que terei imaginado, naquele momento, penetrando em espírito o setor reservado, rompendo o vidro transparente, beijando-a, tão frágil?

O fato é que fui para casa em seguida. A praça barulhenta, a manhã festiva, cheia de sol. Procurei interpretar o que sentia…

Neste dia de sol você nasceu.
Por um mundo melhor você nasceu.
Por um tempo sem dor você nasceu.
Por um gesto de amor você nasceu.

Por uma casa, por uma esteira, por um prato,
por uma luz de vela acesa,
por tudo isso que faz os homens serem homens
de carne e osso e de mãos estendidas,
no abraço e no perdão,
por tudo isso que faz as pessoas se encontrarem,
se amarem, se terem juntas, queridas,
você nasceu…

Ana Padilha Luciano de Oliveira,
alegria de minha vida!
Momento eterno de minha contingência
e de minha procura!

Só, neste mundo de Deus,
meus passos ao vento levantam do chão
a poeira dos caminhos…
Eu sou o menino teu pai, teu amigo irmão,
aquele que te amava
antes mesmo de toda tua vinda,
antes mesmo do antes e do antes…
No pólen, na névoa,
na margem de toda humana busca,
nos silêncios em que não te encontrava,
nem te sonhava,
nem te dizia,
mas em que eu sabia da tua respiração profunda,
palpitando menina, Ana, filha,
em cada célula minha, em cada cromossomo,
como uma certeza infinita,
que hoje se desvenda.

Sempre disse, nos anos que se seguiram, que tinha sido profeta nesse poema. Creio até que, para além das palavras e dos versos, transcendendo a toda expressão ou modo de dizer as coisas, existe uma verdade que às vezes brota, com muita força, em nossa alma. Talvez não se deva chamar isso de poesia, mas, certamente, não se pode escondê-la.

Liana, a mais velha, sempre recebeu escritos meus, em prosa e verso. Mas destaco, aqui, mais um poema que lhe dediquei, por ter perdido outro, nos meandros de um dos meus primeiros computadores:

Perdi um poema.
Foi aquele poema que te fiz naquela tarde
cheia dos tons vermelhos do crepúsculo.

Perdi as palavras que te disse então,
o coração derramado de saudade,
em algum dos escaninhos do meu computador,
máquina estranha e voraz, sem alma e compaixão.

Ficou este vazio
de não lembrar das emoções distantes,
perdidas, flutuantes, naquela tarde sem volta.
Um gosto amargo na boca,
de um não-sei-quê que se foi,
como um navio que mergulhasse no horizonte
dizendo adeus para sempre
e fugisse para o mar do nunca-mais
nunca-mais…

Perdi um poema.
Um poema que lembrava tua infância menina,
que falava dos teus gestos, das tuas fugas,
das tuas esperanças, das tuas dores…

Só não perdi, ah, isso eu não perdi,
o gosto de dizer o quanto quero bem a esta filha mulher,
meu primeiro poema, meu primeiro sim,
minha primeira verdade,
meu primeiro fruto…

Recebi de Deus o presente de um filho inesperado, o quinto, Gabriel. De todos, o mais parecido comigo, no jeito e na fisionomia. E dediquei-lhe o poema que um dia escrevi, de férias em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro:

A poesia não está na manhã,
no céu azul da manhã,
nas montanhas, no ar.
A poesia não está nas ruas de sol,
nos carros apressados,
nas pessoas com cara de domingo.
A poesia não está na praia,
nas ondas quebrando na areia branca,
na espuma breve de renda.
A poesia não está no pescador
puxando a rede, cavando a vida quase alegremente.

A poesia estará talvez
no olhar daquele menino triste,
pelo vazio da janela imensa
e perguntando a si mesmo alguma coisa
que ninguém sabe.

O menino, um dia, será homem,
estará crescido entre as pessoas da rua.
Mas, quem sabe, a semente dessa poesia em sua alma
fará brotar uma lágrima ou um sorriso, uma palavra,
pura poesia para a eternidade.
Ele, menino, homem,
resgatando a humanidade apressada
de sua loucura incompreensível.

Lucimar.
Natal, 19 de junho de 2016.

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