Conversa ao telefone

Uma crônica que escrevi no Rio, em 16 de janeiro de 2005:

CONVERSA AO TELEFONE

Pegou o telefone e discou: dois, cinco, cinco, nove, oito três três nove.

Trimmmmmm… Trimmmmmm… Não atenderam. Desligou. Tocou de novo. Chamou seis, sete vezes. Quando ia desistir, ouviu a voz sonolenta do outro lado.

– Alô…

– Marinalva, Marinalva, sou eu, Carlito!

– Que é, Carlito, já vem você de novo encher o saco?

– Não, Marinalva, pelo amor de Deus, me escuta, mulher!

– Fala, sujeitinho ordinário…

– Marinalva, eu juro que não era o que parecia… Eu tava só tratando de um negócio do trabalho… Não tenho nada a ver com aquela mulher, eu juro por tudo quanto é mais sagrado…

– Pra cima de mim, Carlito?… Logo você, que eu conheço? Tava falando no ouvido, tava com os olhos virados, tava teso que nem macaco prego… Pra cima de mim?

– Não era nada disso, Marinalvinha… Eu tava falando na orelha dela porque o som tava alto, ninguém conseguia comunicar, Deus do céu, Mari, que é isso? Sempre te amei de coração derramado, nunca fui de pular cerca, sou de casa pro trabalho, de trabalho pra casa, você sempre soube disso…

– É, eu pensava que você era só meu… Mas agora eu vi, seu Carlito. Vi com esses olhos que a terra há de comer, não foi preciso ninguém me dizer, não!

– Juro, Marinalva, juro, queridinha do Carlito. Não saio do sério por coisa nenhuma nesse mundo… Pode perguntar pro pessoal da fábrica, pergunta lá… Não quero entregar ninguém, mas sabe aquela mulata sestrosa, cheia de salamaleque, todo mundo de olho nela? Eu nem olho, deixo passar bem longe… E ela tenta, viu? Cheirosa, marrenta, jogando a popa pra tudo quanto é lado, e eu que nem te ligo, sai pra lá, perua, chô, perereca, Mari… Porque eu amo é você, meu bem, meu chuchuzinho, não quero nunca te perder, meu amor, volta, benzinho, não aguento mais de saudade!

– Sai pra lá, mentiroso de uma figa! Eu nunca devia ter acreditado em você!

– Não chora, meu amor! Eu te juro que vou te amar até morrer!

– Verdade?

– Verdade, Marinalva, gatinha do Carlito…

– E se você tá dizendo isso só pra me engabelar e depois me abandona, hein?

– Qué isso, amor, nunca vou te abandonar, pelo amor de Deus… Lembra daquela batatinha doce na manteiga que eu sei fazer pra você no café, que você se derrete toda? Eu prometo que vou fazer todo dia, quanto você quiser, até morrer…

– Verdade mesmo? Promete?

– Claro, neguinha, minha zebrinha assanhada, cabritinha espevitada, meu doce, meu pote de melado…

– Jura?

– Juro, de joelhos, pro meu São Jorge, que vou fazer todas as tuas vontades, meu amor, Marinalvinha do meu coração, Mari, Marinha, minha dengosinha…

– Se você jura… Tá bem, amor, vou voltar, viu?

– Ah! Que bom, amor, que bom que você vai voltar… Eu bem que sabia que você nunca ia me esquecer, por motivo nenhum desse mundo de Deus…

– Meu bem, você acha que eu ia querer te perder, deixar meu moreno pras outras? Não sou doida nem nada…

– Pois é, amorzinho, sempre soube que você não ia me deixar sozinho, entregue a esse mundo perdido!

– Deus me livre, amor!

– Pois é, Marinalva, aliás eu queria te pedir um favorzinho: quando você voltar, não esquece de passar no supermercado pra trazer um filezinho pro teu neném, ok?

– O quê?

– Ali no Mundial, no largo da Segunda-Feira, meu amor. E olha: se tiver um sorvetinho de flocos, não esquece, viu? É meu preferido…

Lucimar.
Natal, 23 de junho de 2016.

A imagem foi copiada da Internet, em:malandrosemalandras.blogspot.com.

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