Velho navio

Homenagem ao glorioso Navio-escola e Navio Oceanográfico “Almirante Saldanha”:

Velho navio

Velho navio,
cisne branco em ventre azul
das águas límpidas do sul.

Quantas vezes partiste,
rasgando o dorso dessas águas,
rútilo velame de punhais
que permanece incólume ao tempo e à morte.

O grito do gajeiro fere,
súbito,
o teu silêncio ancestral.

Na noite dos teus mastros decepados,
ouço vozes perdidas de manobras a pano
e o vento milenar da tempestade.

Hoje, meu velho Saldanha,
renasces para sempre.
E, fulgurante pássaro marinho,
retornas à integridade original.

Lucimar.
Este poema foi escrito no dia da Mostra de Desarmamento do “Saldanha”, 6 de agosto de 1990, por mim, seu derradeiro comandante.

Natal, 21 de julho de 2016

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Não deixarei que partas

Não deixarei que partas de mim
tão de repente assim…

Pensavas que eu te esquecia,
que não queria saber de ti,
que tudo estava acabado?

Te enganavas.

Não deixarei
que o ar da noite me embriague a ponto
de eu não sentir teu perfume de mulher,
disposta a tudo perder por mim,

a chorar as lágrimas que a chuva não chorou,
a ventar com a fúria das tempestades
no oceano das tuas angústias…

Não deixarei que partas.

Se deixasse,
não seria eu o marinheiro de inúteis viagens
que aportei em ti como um velho barco
de muitas travessias

e despertei-te do torpor das enseadas chãs,
para cravar-te a âncora de sonho,
na carne de tua alma enclausurada.

Nunca partirás de mim, mulher amada.

Porque temos um norte,
uma bússola, uma estrela,
a dizer-nos o rumo em mar aberto,

abrindo-nos horizontes nunca imaginados,
lúcidos e límpidos de sóis vermelhos de abismo,

de morte e vida,
de dor e gozo,
de pranto e alegria.

Lucimar.
Natal, 18 de julho de 2017.
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Tesouro

Um poema, para hoje.

Tesouro

Uma mulher
é como um tesouro
no fundo do mar.

Descobri-la é descobri-lo.

Os que vão fundo
aos oceanos desse olhar
hão de ficar buscando toda a vida,
sem talvez encontrá-lo:

muitas terão sido as trevas a escondê-lo,
nas entranhas do silêncio abissal.

Por isso, tu,
mergulhador que o tocas,
tem cuidado antes de abri-lo:

tuas mãos cheias de sol
nada sabem
de tesouros
e segredos.

Natal, 13 de julho de 2016,
Lucimar.
A imagem foi copiada da Internet, em: imagenscomtexto.blogspot.comMulher_misteriosa_2

Valentina

Minha neta Fernanda Nascimento espera, para breve, o nascimento de sua filha, Valentina. Estivemos juntos no Rio, mês passado, para que eu fosse apresentado a esse maravilhoso projeto de vida.

Em homenagem a Valentina, minha bisneta, que chega dez anos depois do meu primeiro bisneto, Guilherme Rech, compus um pequeno poema, para saudá-la, em sua próxima chegada.

Junto, uma foto que tiramos, eu e Fernanda, na casa de meu filho Mauro e minha acolhedora nora, Adriana.

Valentina

Por essa impressionante multiplicação da vida
vai chegar Valentina.

Porque a Vida surge
do âmago da terra
e dos animais
e das gentes
vai chegar Valentina.

E ela vem chegando
pra responder à chamada
da escola do mundo,
que já não pode viver sem ela,
que palpita,
que suga o sangue,
que cresce
no seio de Fernanda.

Vem, Valentina,
estamos todos
esperando por você!

Lucimar.
Natal, 3 de julho de 2016.

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Conversa ao telefone

Uma crônica que escrevi no Rio, em 16 de janeiro de 2005:

CONVERSA AO TELEFONE

Pegou o telefone e discou: dois, cinco, cinco, nove, oito três três nove.

Trimmmmmm… Trimmmmmm… Não atenderam. Desligou. Tocou de novo. Chamou seis, sete vezes. Quando ia desistir, ouviu a voz sonolenta do outro lado.

– Alô…

– Marinalva, Marinalva, sou eu, Carlito!

– Que é, Carlito, já vem você de novo encher o saco?

– Não, Marinalva, pelo amor de Deus, me escuta, mulher!

– Fala, sujeitinho ordinário…

– Marinalva, eu juro que não era o que parecia… Eu tava só tratando de um negócio do trabalho… Não tenho nada a ver com aquela mulher, eu juro por tudo quanto é mais sagrado…

– Pra cima de mim, Carlito?… Logo você, que eu conheço? Tava falando no ouvido, tava com os olhos virados, tava teso que nem macaco prego… Pra cima de mim?

– Não era nada disso, Marinalvinha… Eu tava falando na orelha dela porque o som tava alto, ninguém conseguia comunicar, Deus do céu, Mari, que é isso? Sempre te amei de coração derramado, nunca fui de pular cerca, sou de casa pro trabalho, de trabalho pra casa, você sempre soube disso…

– É, eu pensava que você era só meu… Mas agora eu vi, seu Carlito. Vi com esses olhos que a terra há de comer, não foi preciso ninguém me dizer, não!

– Juro, Marinalva, juro, queridinha do Carlito. Não saio do sério por coisa nenhuma nesse mundo… Pode perguntar pro pessoal da fábrica, pergunta lá… Não quero entregar ninguém, mas sabe aquela mulata sestrosa, cheia de salamaleque, todo mundo de olho nela? Eu nem olho, deixo passar bem longe… E ela tenta, viu? Cheirosa, marrenta, jogando a popa pra tudo quanto é lado, e eu que nem te ligo, sai pra lá, perua, chô, perereca, Mari… Porque eu amo é você, meu bem, meu chuchuzinho, não quero nunca te perder, meu amor, volta, benzinho, não aguento mais de saudade!

– Sai pra lá, mentiroso de uma figa! Eu nunca devia ter acreditado em você!

– Não chora, meu amor! Eu te juro que vou te amar até morrer!

– Verdade?

– Verdade, Marinalva, gatinha do Carlito…

– E se você tá dizendo isso só pra me engabelar e depois me abandona, hein?

– Qué isso, amor, nunca vou te abandonar, pelo amor de Deus… Lembra daquela batatinha doce na manteiga que eu sei fazer pra você no café, que você se derrete toda? Eu prometo que vou fazer todo dia, quanto você quiser, até morrer…

– Verdade mesmo? Promete?

– Claro, neguinha, minha zebrinha assanhada, cabritinha espevitada, meu doce, meu pote de melado…

– Jura?

– Juro, de joelhos, pro meu São Jorge, que vou fazer todas as tuas vontades, meu amor, Marinalvinha do meu coração, Mari, Marinha, minha dengosinha…

– Se você jura… Tá bem, amor, vou voltar, viu?

– Ah! Que bom, amor, que bom que você vai voltar… Eu bem que sabia que você nunca ia me esquecer, por motivo nenhum desse mundo de Deus…

– Meu bem, você acha que eu ia querer te perder, deixar meu moreno pras outras? Não sou doida nem nada…

– Pois é, amorzinho, sempre soube que você não ia me deixar sozinho, entregue a esse mundo perdido!

– Deus me livre, amor!

– Pois é, Marinalva, aliás eu queria te pedir um favorzinho: quando você voltar, não esquece de passar no supermercado pra trazer um filezinho pro teu neném, ok?

– O quê?

– Ali no Mundial, no largo da Segunda-Feira, meu amor. E olha: se tiver um sorvetinho de flocos, não esquece, viu? É meu preferido…

Lucimar.
Natal, 23 de junho de 2016.

A imagem foi copiada da Internet, em:malandrosemalandras.blogspot.com.

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Tributo aos filhos

Tributo aos Filhos

O grande poeta Carlos Drummond de Andrade sentenciou: “Não faça versos sobre acontecimentos”. Magister dixit: abaixo a poesia circunstancial. A isso estávamos condenados, mesmo que as peças do dia a dia, a casa, o trabalho, a rua, os vizinhos, a cidade, o mundo, fossem os únicos modelos disponíveis.

Quando minha filha Liana, a primogênita, nasceu, eu escrevera:

Para cada momento existe uma só e única poesia:
a impossível
a inefável poesia que vem de Deus.

Neste momento, alguma coisa além de mim
me liga inexplicavelmente
ao coração franzino e meigo de minha filhinha.

Acho que é a poesia única
sobre a face da terra.

No final da década de 1960, contrariando o mestre, eu pecava por ignorância. E expressava, em versos despretensiosos:

A paz das coisas arrumadas,
das tarefas terminadas,
da mesa posta.
A paz das palavras ditas,
do silêncio guardado,
da ofensa esquecida.
Mas, sobretudo, a paz das eternidades,
a paz do amor.

Voltando de Salvador, em março de 68, trazia um poema para meu filho Mauro. Com seu jeito distraído, rompia as convenções. A gente se desdobrava em preservar aquela vida iniciante:

O dia inteiro ele brincou,
correu, caiu, chorou, sorriu…
O dia inteiro ele gastou
na inquietação ingênua de suas traquinadas,
levou palmadas da mãe, o pai brincou com ele,
correu na rua, quase foi atropelado…
Comeu depressa,
porque tinha muita pressa de viver a sua vida…

Novamente caiu, novamente chorou, novamente sorriu,
e a noite foi chegando devagar e ele devagar foi-se apagando,
como um balão no céu foi-se apagando,
e caindo, e caindo, e caindo, e caindo
e sorrindo, e sorrindo, e sorrindo, e sorrindo…
Nada mais lhe doía, nada mais o apressava,
era tudo tão manso, era tudo tão calmo…

E assim ficou, até que amanhecesse,
assim sorrindo como uma vela ao vento,
até que todos os balões se apagassem,
até que todos os violões da noite silenciassem,
e eu, pai, ao seu lado adormecesse, viajante e só,
oceano adentro, a bordo de um sorriso!

Quando passei a estudar regularmente literatura, em faculdade de letras, não tinha desculpa. Tinha que transpirar, suar a camisa, buscar o ritmo, a rima interna, as aliterações. E eu seguia a norma, obedecia às exigências do meu tempo. Quem me libertou dessa cadeia? Creio que, mais uma vez, meus filhos. Um dia, eu iniciara um poema…

Foi o tempo que passou
foi a vida que passou
foi a morte que passou…
Tão perto a morte passou…
A tarde era fria, a tarde era triste, a tarde era feia
e eu tão sozinho na tarde!

Como lá longe um grito, longe um grito,
grito, grito, grito, grito, grito, grito,
ainda um grito.

Mas era tudo uma dor, um silêncio,
uma vontade de sonho…
E todos buscavam na tarde
um momento de sonho…
E havia tudo em todos e todos tinham tudo…
E eu tinha tudo e todos:
tinha, tinha, tinha, tinha, tinha, tinha.

Marcelo entrou na sala. Correndo, a criança de cinco anos rompia o silêncio e a concentração que me envolviam. Havia um raio de sol na janela, aberta de par a par. Seus cabelos ficaram momentaneamente louros, do sol impertinente.

Não, não era bem assim.
Depois um pássaro, uma criança, um momento,
tenho certeza: pássaro.

Criança, música, janela, estava tudo aberto.
O vento soprou seus cabelos,
o sol bateu no chão, como um gesto.

Ali ficamos os dois, a criança-pássaro e eu. No átimo, no espaço de uma janela. O vento nos cabelos. O sol no chão.

E foi-se o sol, na tarde, foi-se embora,
nunca mais o momento passou, foi-se embora,
o momento ficou, foi-se embora.

Depois a criança vestida de sol,
vestida de sonho, vestida de vida,
e eu tão-nu, tão-nu, tão-nu, tão-nu, tão-nu.

Que poderia restar do pai ressuscitado? Que poderia restar da dor transfigurada?

E, de repente…
Não, não foi de repente.
Eu me nasci do fundo das tristezas da tarde
e me fiz leve, leve, leve
como uma lágrima,
e me chorei (baixinho) fundamente,
e me parti no peito (dentro do peito):
menino, sol, silêncio, dor, deserto,
pássaro ferido.

E eu não sabia, ah eu não sabia, então, que este era um poema premonitório, pois os anjos falam-nos por enigmas, não por sinais perfeitos, de leitura fácil. Marcelo veio a falecer em 1998, preso à bomba de sucção da piscina de crianças do América, na Rua Campos Sales, num sábado comum, quando se divertia com a família. Logo ele, mergulhador profissional, campeão paulista de natação aos 14 anos, chamado a nadar pelo Flamengo em 1981, quando voltamos de São José dos Campos! Surpresas da vida!

Quando Ana nasceu, em agosto de 74, eu já saíra da faculdade. Estávamos novamente em Natal. Eu era assistente do Comandante Naval.

Vi quando trouxeram a menina da sala de parto, logo depois de nascer. A enfermeira a segurava nas mãos suspensas, como uma oferta preciosa ao mundo. Fiquei ali, esperando que a pusessem no berçário. Através da vitrine, podia agora examiná-la em detalhe.
Era uma viajante do espaço sideral, que pousava na terra. Um raio de alegria que descia ao chão do berço. Olhei-a com ternura. Que terei pensado? Que terei imaginado, naquele momento, penetrando em espírito o setor reservado, rompendo o vidro transparente, beijando-a, tão frágil?

O fato é que fui para casa em seguida. A praça barulhenta, a manhã festiva, cheia de sol. Procurei interpretar o que sentia…

Neste dia de sol você nasceu.
Por um mundo melhor você nasceu.
Por um tempo sem dor você nasceu.
Por um gesto de amor você nasceu.

Por uma casa, por uma esteira, por um prato,
por uma luz de vela acesa,
por tudo isso que faz os homens serem homens
de carne e osso e de mãos estendidas,
no abraço e no perdão,
por tudo isso que faz as pessoas se encontrarem,
se amarem, se terem juntas, queridas,
você nasceu…

Ana Padilha Luciano de Oliveira,
alegria de minha vida!
Momento eterno de minha contingência
e de minha procura!

Só, neste mundo de Deus,
meus passos ao vento levantam do chão
a poeira dos caminhos…
Eu sou o menino teu pai, teu amigo irmão,
aquele que te amava
antes mesmo de toda tua vinda,
antes mesmo do antes e do antes…
No pólen, na névoa,
na margem de toda humana busca,
nos silêncios em que não te encontrava,
nem te sonhava,
nem te dizia,
mas em que eu sabia da tua respiração profunda,
palpitando menina, Ana, filha,
em cada célula minha, em cada cromossomo,
como uma certeza infinita,
que hoje se desvenda.

Sempre disse, nos anos que se seguiram, que tinha sido profeta nesse poema. Creio até que, para além das palavras e dos versos, transcendendo a toda expressão ou modo de dizer as coisas, existe uma verdade que às vezes brota, com muita força, em nossa alma. Talvez não se deva chamar isso de poesia, mas, certamente, não se pode escondê-la.

Liana, a mais velha, sempre recebeu escritos meus, em prosa e verso. Mas destaco, aqui, mais um poema que lhe dediquei, por ter perdido outro, nos meandros de um dos meus primeiros computadores:

Perdi um poema.
Foi aquele poema que te fiz naquela tarde
cheia dos tons vermelhos do crepúsculo.

Perdi as palavras que te disse então,
o coração derramado de saudade,
em algum dos escaninhos do meu computador,
máquina estranha e voraz, sem alma e compaixão.

Ficou este vazio
de não lembrar das emoções distantes,
perdidas, flutuantes, naquela tarde sem volta.
Um gosto amargo na boca,
de um não-sei-quê que se foi,
como um navio que mergulhasse no horizonte
dizendo adeus para sempre
e fugisse para o mar do nunca-mais
nunca-mais…

Perdi um poema.
Um poema que lembrava tua infância menina,
que falava dos teus gestos, das tuas fugas,
das tuas esperanças, das tuas dores…

Só não perdi, ah, isso eu não perdi,
o gosto de dizer o quanto quero bem a esta filha mulher,
meu primeiro poema, meu primeiro sim,
minha primeira verdade,
meu primeiro fruto…

Recebi de Deus o presente de um filho inesperado, o quinto, Gabriel. De todos, o mais parecido comigo, no jeito e na fisionomia. E dediquei-lhe o poema que um dia escrevi, de férias em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro:

A poesia não está na manhã,
no céu azul da manhã,
nas montanhas, no ar.
A poesia não está nas ruas de sol,
nos carros apressados,
nas pessoas com cara de domingo.
A poesia não está na praia,
nas ondas quebrando na areia branca,
na espuma breve de renda.
A poesia não está no pescador
puxando a rede, cavando a vida quase alegremente.

A poesia estará talvez
no olhar daquele menino triste,
pelo vazio da janela imensa
e perguntando a si mesmo alguma coisa
que ninguém sabe.

O menino, um dia, será homem,
estará crescido entre as pessoas da rua.
Mas, quem sabe, a semente dessa poesia em sua alma
fará brotar uma lágrima ou um sorriso, uma palavra,
pura poesia para a eternidade.
Ele, menino, homem,
resgatando a humanidade apressada
de sua loucura incompreensível.

Lucimar.
Natal, 19 de junho de 2016.

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