Telhado de menino

Há coisa mais tocante, ao mesmo tempo triste e bonita, que a chuva no telhado?

Telhado de menino

Telhado meu, em musgo liquefeito,
nas goteiras de dor do meu jardim,

os teus rios de chuva, em cachoeira,
descem loucos e fortes, sobre mim!

Telhado meu, que me relembra a infância,
das ilusões sem volta, a dor perdida,

que me trazes de volta à meninice,
eu sozinho no tempo, olhando a vida!

Telhado silencioso, chão de sonho,
pendurados abismos, casas tristes,

nem sei se eu mesmo volto ou se tu voltas
nem sei se sobrevivo ou mesmo existes!

Telhado que perdi, no mar do mundo,
nos caminhos sem fim do meu destino,

e o redescubro agora, neste outono
de alma livre e coração menino!

Lucimar.
Natal, 4 de junho de 2016.

A imagem foi copiada da Internet, em: comunidade.maiscomunidade.com.9f55f88f2b7b53425e912303306efbb3cf60e6b8

Chuva fria

Desde que me entendo de gente, como dizia minha avó, escrevo, principalmente poesia. Mas apenas de um tempo para cá, não sei precisamente por que razão, passei a produzir sonetos. Na verdade, os primeiros, ainda com a Hildette, minha primeira amada esposa, viva, embora bastante enferma.

Depois que ela partiu, continuei nessa linha. Um dos que me lembro mais fortemente retrata a saudade que ela deixou em mim e eu o escrevi depois de receber um PowerPoint com música clássica e imagens de um dia de chuva. Aí vai:

Chuva fria

Já faz um tempo que essa chuva fria
Enche-me o coração enamorado
De insólita lembrança do passado,
Saudade, enfim, da tua companhia.

E vejo, pelas frestas da agonia,
Rua molhada, o amor de braço dado,
Casal feliz andando lado a lado,
E o espectro de luz que o denuncia.

Guarda-chuvas desfeitos pelo vento,
Crianças em vidraças, folhas nuas,
Toldam-me a alma em dor, neste momento.

E, como já partiste há muitas luas,
Saio então, mundo afora, passo lento,
A procurar-te, louco, pelas ruas.

Lucimar.
Natal, 1 de junho de 2016.

 13315578_1225104460835585_8812129295031925094_n

Carpemus diem

O filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, do saudoso Robin Williams interpretando magistralmente o professor John Keating, nos trouxe a expressão “Carpe Diem” (Aproveite o seu dia!).

Pois bem. Apresento a vocês este soneto, que fiz algum tempo atrás, para comemorar a visita em minha casa no Rio do estimadíssimo colega e amigo Antonio Carlos Cunha Monteiro, a quem todos da Turma Face chamamos de Camelão, com sua mulher Marly.

Camelão, virtuose do piano e do teclado, dava um show. E eu, cantor bissexto, fazia o vocal.

Aí vai o soneto, naturalmente na primeira pessoa do plural: “Aproveitemos o dia!”:

Carpemus diem

Aos amigos que vêm à minha casa
Abro as portas, cortinas e janelas,
E, nos ventos do mar, desfraldo as velas,
O coração feliz e o peito em brasa!

Como um livre condor estendo a asa
Pelo espaço infinito das estrelas,
Límpidas, lúcidas, claras sentinelas
Do céu imenso, que esplendores vaza…

Celebremos, então, a juventude:
Que uma saudade boa nos ajude,
Neste dia de festa e de alegria…

Pois a vida entre os dedos nos escorre:
(não se pode saber quando se morre)…
Desfrutemos, irmãos, o nosso dia!

Abraço a todos,
Lucimar.
Natal, 30 de maio de 2016.

A imagem foi copiada da Internet, em: radiometodista.liveradio.com.br

Foto de Lucimar Luciano de Oliveira.

Náufrago

Na praia desses olhos desmaiei,
Como um náufrago roto e fatigado,
Das braçadas em fuga do passado,
No mar da vida, inóspito e sem lei.

Nas etapas vencidas, me cansei
De buscar novos rumos, lado a lado
Com arlequins e palhaços, mergulhado
Num reino de ilusões, onde sou rei.

Quero apenas o clima desta aldeia
E uma casinha simples, junto ao mar,
Neste resto de vida, que escasseia.

Pois, se entronizo a Musa em meu altar,
Sei que tenho a meu lado essa sereia
De mãos dadas comigo, a caminhar.

Natal, 27 de maio de 2016.
Lucimar.

A imagem foi copiada na Internet, em: www.decoracaoeideias.com13310535_1222001484479216_5211427093135792216_n