Recomeço

Soneto de hoje:

Recomeço

Há nesta orquestração, no som do violino,
Algo que me deslumbra, encanta e desafia,
Como o raiar do Sol, ao vir de um novo dia,
E fala ao coração, em êxtase divino.

E quando, na alvorada, o cântico do sino
Louva o céu infinito e a luz da estrela-guia,
Recordo o Redentor em sua lenta agonia,
No Horto, em oração, aceitando o Destino.

Sou, porém, neste mundo, um pobre atormentado:
Como posso saber da minha vida o sumo,
Se não sei receber, como Cristo, este Fado?

Uma só condição, neste momento, assumo:
Quero ter novamente uma mulher ao lado
Que possa me ajudar a descobrir meu rumo.

Natal, 20 de abril de 2016.
Lucimar.
A imagem foi copiada da Internet em: webcatolicodejavier.org.jesus no horto

Arlequim

O soneto que publico hoje, em versos alexandrinos, é de alguns anos atrás, mas acabo de trabalhá-lo, mudando algumas rimas. Portanto, se alguém tiver lido a versão antiga, desconsidere-a. A que vale é essa.

Arlequim

Exercitar o Amor tornou-se uma agonia,
Pois, de tanto fazê-lo o pão de minha mesa,
Deixei-me seduzir por encanto e beleza
E esqueci-me de ser aquilo que devia…

Arrastei-me a teus pés, Mulher, na fantasia
De palhaço do sonho, arauto da tristeza,
E, arlequim solitário, acabei sem defesa,
Cativo da quimera, escravo da alegria…

Quando chego a esta quadra, a derradeira idade,
Comove-me lembrar do meu tempo — do início,
Por ter jogado fora a vida e a mocidade…

E, se sinto, tão fundo, a dor de cada vício,
Também sei que este anseio imenso que me invade
É fruto da ilusão, do Mal, do desperdício!

Natal, 18 de abril de 2016.
Lucimar.
A imagem foi copiada da Internet, em: veja.abril.com.bris (2)

O herói e a crise

Acho que esse meu poema, de algum tempo atrás, é bastante oportuno:

O herói e a crise

Homem rico, sensível, diligente,
Considerado sempre como herói,
Alto, bonito, pose de caubói,
Comandava, na indústria, muita gente.

“Um poço de virtudes”, certamente,
Propalava-se dele, como sói
Acontecer com aquele que constrói
Um tal império, enfim, sem concorrente.

Seguia a vida em frente, em tom normal
– Era ao menos assim que ele pensava –,
Quando ocorreu uma crise sem igual.

Não havendo mais flecha em sua aljava,
Pediu falência, fez seu embornal
E fugiu com o dinheiro que restava.

Lucimar.
Natal, 16 de abril de 2016.
Imagem copiada da Internet em: www.jornalagora.com.bris (1)

Novo Mundo

Um soneto de hoje. Nestes tempos difíceis, é preciso criar um Novo Mundo!

Novo Mundo

Que novos tempos esses, sem destino?
Que tempos novos esses, que vivemos?
Que certezas de amor ainda temos,
Vivendo sós, num mundo em desatino?

Que esperanças, que céus, que véu tão fino
Esse que tolda tudo que queremos
E impede-nos sonhar o que não vemos
E deixa-nos tão longe do Divino?

Quero criar um novo dicionário
De palavras ao vento, saborosas,
Saudadas no bater do campanário…

Distribuir as contas do rosário
Nas esquinas, nas ruas, como rosas,
Viver um novo mundo, panfletário…

Lucimar.
Natal, 11 de abril de 2016.

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A morena de Santana

Por falar em redondilha, segue uma que escrevi, respondendo a desafio do meu amigo Daltro Ollveira, do grupo dos Poenautas. Ele remetera a fotografia de uma jovem mulher, natural de Santana (AP), cuja história de vida se assemelha à de muitas outras jovens, por esse Brasil afora.

Transcrevo a redondilha, ilustrada por outra fotografia, desta vez da própria Santana, uma bela e orgulhosa cidade do Estado do Amapá.

A Morena de Santana

A morena de Santana
saiu de casa bem cedo:
na velha estrada da cana
já sentia muito medo.

Pois foi só, sem mais aquela,
não conseguiu companhia,
não puderam ir com ela
sequer a mãe ou a tia.

Ela pensava e pensava
como seria esse dia,
se de tarde regressava
ou se ficava e dormia.

Mas o perigo era imenso
e a menina, coitadinha,
julgava ser contrassenso
ter de ficar, tão sozinha.

Perigo, mesmo de dia,
de encontrar algum ladrão,
e o que mais ela temia
era dormir na pensão.

Porque de noite, lá dentro,
depois que o sol ia embora,
começava um movimento
de chegar gente de fora.

Era um tal de chegar homem,
desconhecido e qualquer,
com jeito de quem tem fome
e procurando mulher.

Ela, afinal, muito nova,
menina-moça donzela,
ia encontrar sua cova
numa casa como aquela.

A morena sem maldade
queria apenas comprar
um vestido na cidade
para depois retornar.

Mas foi ficando, cachopa,
a tarde passando em vão,
ela nas bancas de roupa
sem encontrar um chitão.

Quando viu, de tão perdida,
já não tinha solução:
e foi procurar dormida
na perigosa pensão.

Lá chegando, sem mais jeito,
morena, simples e bela,
bateu no portal estreito,
veio a dona pra janela.

“Pode entrar, menina linda”,
disse a matrona enfeitada,
“pra dormir tem cama ainda,
é barato, um quase-nada!”

Bem que eu queria contar
o fim dessa história triste,
mas prefiro me calar,
que vergonha ainda existe.

Eu, que tenho os sonhos meus
feitos de dó e de crença,
mesmo jurando por Deus
talvez nunca lhe convença:

Que a morena desde quando
achou lugar na pensão,
foi ficando, foi ficando
e de lá não sai mais não.

Lucimar.
Natal, 8 de abril de 2016.

O poema foi escrito em 2008. E a imagem copiada da Internet, emhttp://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1549731

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Os barcos da minha terra

Os barcos da minha terra,
de brancas velas austrais,
cantavam canções ligeiras
no embalo dos meus terrais.

E as noturnas cicatrizes
das lembranças cordiais
varriam minhas tristezas,
afastando-as mais e mais.

Os barcos da minha terra,
entre os rios do meu cais,
navegavam cercanias
dos meus voos marginais.

Povoavam muitas milhas
de saudades ancestrais,
matando-me a alma insossa,
cheia de amores banais.

Os barcos da minha terra,
a retesar seus brandais,
feriam-me os pés sangrentos
de muitas fugas fatais.

Enchiam-me a casa antiga
de sons de gritos e ais,
parentes mortos, lembranças,
dores e angústias demais.

Os barcos da minha terra,
ah meus barcos, ah meu cais,
se perderam pelo tempo,
não vou vê-los nunca mais.

Mas eu juro pela Virgem
Estrela-guia da Paz,
que os barcos da minha terra
não os esquecerei jamais.

Lucimar.
Natal, abril de 2016.

A imagem é reprodução de um Monet.
Alterei a redação original, pois Mampituba não é uma cidade litorânea, como eu pensava, mas do interior, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

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maria

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maria de lourdes oliveira,
nascida no distante ano de 1917,
em dezesseis de junho,
segundo ela numa bela manhã de sol,
como descreviam então seu velho pai,
o agrimensor henrique,
e sua costureira mãe, amélia.

maria de muitas estórias e muitas lembranças,
que me contava em conversas saudosas,
daquele pai e daquela mãe,
de candeeiros acesos,
de viagens por terras desconhecidas,
de caminhos e veredas,
de sonhos e descobertas.

hoje maria está assim: de lourdes oliveira,
mas calada.

o silêncio é o companheiro de última jornada.

já não fala maria, já não conta lembranças,
apenas dorme sozinha esse sono de espera,
na travessia que faz para um mundo definitivo,
de amor e verdade,
de vida e alegria.

Natal, 26 de março de 2016.
Lucimar, filho de Maria.