Menino travesso

20151227_190716Acompanho minha mãe
em sua viagem para o infinito.

Vejo-a todo dia navegando
no mar sem fim da vida
de seus noventa e nove anos.

Cabelos brancos ao vento,
levanta ondas do passado
de eu criança sem juízo
subindo em árvores de quintais baldios,
lambuzando os dedos de manga rosa,
correndo pelas ruas menino como hoje
sem destino preciso.

Acompanho minha mãe
em sua viagem para o infinito.

E de seu lado
navega meu velho pai já morto.

E ele a chama, insistente.

Ela responde: agora, não, Luciano,
ainda tenho muita coisa
que ensinar a esse filho travesso!

Lucimar.
Natal, 27 de janeiro de 2016.

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Eu e você

Eu e você

Sobre a mesa arrumada,
o prato de arroz,
o peixe à milanesa,
os talheres postos.

A taça de vinho branco,
os guardanapos de papel.

Em toda a casa,
um arrepio de brisa,
janelas semiabertas,
tempo frio.

Eu e você,
e o tempo,
e a vida
que passou tão depressa!

Lucimar.

Natal, 25 de janeiro de 2016.12553064_1138772256135473_3726441244290248528_n

Minha casa

12605364_1133626273316738_926039100021357276_oMinha casa é meu lugar. Espaço onde fundeio, como o veleiro na enseada. Tem jeito de rede, de varanda, de brisa.

Janelas abertas para o universo, por onde chega o céu e tudo o mais que ele contém.

Por onde o sol se derrama, aos borbotões, em ouro derretido. E a lua nua amua o trovador e se desfila ao léu, no céu, o despudor de seus encantos lassos, fluindo e refluindo o mar, na cheia e na vazante dos meus passos!

De onde espio estrelas solitárias em seu brilho triste, ardendo em fogo aflito. E de onde parto e me parto e me reparto, para viagens no sempre, no infinito, da solidão imensa do meu quarto.

Janelas que pendem sobre telhados e abismos, e rios que correm para o mar sem fim. Janelas em perspectiva, onde a alma descansa olhos perdidos, nas estradas da vida, mundo afora. Janelas cubistas, de traços agudos e oblíquos, cônicos e polimétricos. Janelas entreabertas, sonolentas, bocejando abandono.

Minha casa tem silêncios pelos cantos, que percutem as horas noturnas, como sinos, marcando o passar do tempo, lá fora. Porque, em minha casa, mesmo o tempo é eterno.

Minha casa, meu cais. Meu segredo, meu descanso. Para curtir e recurtir os meus e os teus dias. Nossos dias. Não os do passado, mas os de hoje e de amanhã.

Que sejam como os da colheita, de quem plantou e trabalhou a terra.

Dias de olhar o campo e ver o trigo maduro, soprado pelo vento, em ondas.

Dias sem fim, de janelas ao sol, de peixe frito na brasa, na varanda, comprado ao pescador, direto, na praia.

Dias de lembranças, de estender até tarde e falar tanta coisa, espichando o tempo, tomando vinho branco devagar.

Dias sem relógio, ouvindo o som do vento, nós dois na rede, conversando em silêncio, os filhos já crescidos, pela vida.

Dias, enfim, de não mais ficar longe, nem partir, nem fugir, nem machucar, as mãos dadas, pelo mundo afora.

Por esses dias, esperei toda a minha vida.

Lucimar.
Natal, 19 de janeiro de 2016.

Ribaçã

Nesta manhã um pouco sombria, em que me toca a saudade das paixões passadas, reproduzo abaixo um poema de anos atrás. “Ribaçã” é como chamamos, no Nordeste do Brasil, essa ave de arribação que, de tempos em tempos, nos abençoa com sua passagem migratória, para os ninhos do Norte ou do Sul.

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Sinto pousar em mim
teu coração enamorado.

E ele chega tão manso, inebriado,
com a leve brisa que sopra sutilmente
de palavras e silêncios,
nas mensagens que me mandas.

Ele chega e se instala em minha vida,
um pássaro em seu ninho,
ribaçã, arribação, ave migrante.

Tuas mãos me tocam, ardilosas,
semoventes, como dunas ardentes,
semeando desertos em meu peito.

E eu me faço teclado em sinfonia,
sonorizando sonhos e delírios,
no toque dessas mãos maravilhosas.

Nas mensagens que me mandas,
sinto pousar em mim
teu coração enamorado.

Um coração que arde intensamente,
impulsionando o sangue das entranhas,
no ritmo encantado do desejo.

E eu também me estremeço em tais anseios,
que minha alma se derrama, como um rio,
à procura do oceano dos teus seios.

Lucimar.
Natal, 14 de janeiro de 2016.

Versão para o inglês, por Antonio Sepulveda:

Eared dove

I can feel your enamored heart reach out for me.

And it comes gently, inebriated, carried by the light breeze that subtly whispers words and silences within the messages that you send me.

It comes and settles upon my life like a bird in its nest, like a migrant eared dove.

Your hands touch me, cunning, nimble, like burning dunes, seeding deserts in my chest.

And I turn myself into a symphonic keyboard, sounding off about dreams and delusions with the touch of those delightful hands.

I can feel your enamored heart reach out for me within the messages that you send me.

A blazing heart that goes up in flames, pushing blood into the bowels in the enchanted tempo of lust.

I also shudder at such yearnings; my soul pours out like a river, seeking the ocean of your breasts.

Lucimar.

Natal, 14 January, 2016.

Homenagem a uma velha amiga

Ano passado, partiu para a Eternidade uma velha amiga, que conheci em Salvador, nos idos de 1966, ainda muito jovem, linda, fraterna e doce.

Poucos dias antes de sua partida inesperada, eu tinha transcrito em minha página do Facebook um poema que a ela dedicara, naqueles tempos heroicos.

Agora o reproduzo aqui, para lembrá-la, com a saudade forte que ela deixou.

Ah Bahia!

Guy de Larigaudie, em um de seus contos, narra o momento em que, numa terra distante, foi atraído pela beleza de uma nativa.

Montado em seu cavalo, esporeou-o para bem longe, com o propósito de não se deixar seduzir por aquela beleza rara.

Termina por afirmar que, no dia do Juízo Final, se não tiver de sua longa vida o que oferecer a Deus, Justo Juiz, a Ele entregará esse momento, em que não seguiu os apelos do próprio coração.

Anos atrás, conheci uma jovem na Bahia que muito me impressionou. Mas também eu não podia, então, seguir os apelos do coração. E, como já vão muito distantes estes anos, posso revelar aqui um dos poemas (foram vários!) daquela minha renúncia:

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quando eu for embora
te deixarei não o meu sorriso
nem a minha tristeza
porém esta láurea conquistada
esta vitória de amor que é ir-me embora.

quando eu for embora
te deixarei não flores
nem lembranças
nem abraços de ternura
nem beijos (mesmo os mais castos e mais puros)
mas esta única e definitiva
vitória de amor que é ir-me embora.

não que eu recuse o amor
não que o despreze
mas sobretudo que o sei alto e nobre e manso e fiel.
sobretudo que o sei belo como a chama que devora
e que devasta e que consome.

quando eu for embora
te deixarei não a lembrança da casa nem dos filhos
que os não temos.
te deixarei não a saudade do mar que me acalenta
pois deserto.

mas a grandeza desse gesto de adeus que dilacera
esta vitória de amor que é ir-me embora.

Lucimar.
Natal, 12 de novembro de 2015.