Repouso

Mais um poema, do meu próximo livro, “Mar em mim”, atualmente no prelo:

Repouso

Numa tarde como esta,
há de haver poetas espalhados
nas margens do tempo,

pessoas debruçadas nas janelas dos edifícios
espiando passar a vida,

crianças brincando nas ruas,
nos parques e nas praias.

Numa tarde como esta,
nos pátios dos mosteiros há de haver
um silêncio tão intenso,
como intenso é o azul do céu da tarde.

Há de haver um lugar numa tarde como esta
onde não tenha chegado o barulho do mundo,
onde o ritmo da vida seja o ritmo da flor nascendo,
da água brotando da terra.

Onde afinal seja possível parar,
começar, descobrir alguma coisa nova.

Há de haver um lugar assim:
sem televisão,
sem rádio,
sem carro,
sem grito,
sem morte,
sem dor,

onde a gente possa repousar a cabeça
no colo da Virgem Maria
e adormecer devagarinho, muito devagarinho,
o sono derradeiro.

Lucimar.
Natal, 27 de fevereiro de 2015.

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Feriado de poesia

Um poema de carnaval:

Feriado de poesia

Queria te dar a poesia de agora,
mas ela mandou dizer que não vem,
que saiu por aí, à toa na vida,
pra buscar os motivos, os sons,
os ritmos e rimas, a inspiração enfim…

Queria te dar a poesia de hoje,
mas a poesia de hoje me disse que não,
que hoje é carnaval, é feriado de poesia,
e por isso ela não vem de jeito nenhum,
não tem como sair de casa num dia assim…

Queria te dar a poesia desta manhã,
a poesia dos pássaros soltos,
das crianças correndo, das árvores cheias de sol,
mas me disseram que agora é proibido sonhar,
e eu fiquei na janela espiando o céu azul…

E como não pude te dar ao menos um verso,
te deixo aqui de lembrança a minha tristeza,
este menino calado debruçado em minha alma,
querendo sair por aí, querendo asas pra voar,
e que não cansa de buscar em tudo o sentido da vida…

Lucimar.
Natal, 22 de fevereiro de 2015.

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Lugar

Poema do meu livro “Mar em mim”, que está no prelo:

Lugar

Neste lugar
ficará para sempre o peso
de minha presença.

Serei uma sombra no tempo
desse passar do tempo,
serei a véspera
de estar aqui.

Nesta rua, nesta casa,
neste templo em silêncio,
ficarei menino, ficarei desperto,
no para-sempre, no ir-se andando das tardes,
quando tudo cansar-se do existir.

O peso de minha presença
na cadeira onde sento, na mesa onde escrevo,
no relógio,
na cama,

o peso do meu silêncio
ficará pendente no madeiro das horas,
cruz-caminho,
doce frase,
mágico sorriso.

Lucimar.
Natal, 15 de fevereiro de 2015.

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Pé descalço

Este poema não está no livro, porque foi escrito agora. Tenho outro, no livro “Mar em mim”, que se chama “Pés descalços”. Este vai no singular.

Pé descalço

Para Edna

Pé descalço, areia,
da mulher que amo,
passos de sereia,
lúcido, proclamo:

imagem bendita,
doce amor e paz,
nuvem que palpita,
canto uma vez mais!

Rota sem retorno,
chega por chegar,
coqueiral em torno,
no vento, a cantar…

Pé descalço, eu ponho
o meu atrás de ti
vou buscar meu sonho
vou ficar aqui:

ter nossa tapera,
esteiras ao luar,
onde o amor impera,
ondas, junto ao mar!

Lucimar.
Natal, 13 de fevereiro de 2015, 11:50.

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Poesia do mar

Do meu próximo livro, no prelo, “Mar em mim”:

Poesia do mar

Eu trouxe
a longínqua poesia do mar,
na madrugada de minha tristeza.
E em minha boca
sinto o sal daquelas lágrimas.
Meu vulto negro, na noite negra
de negras saudades,
tem um gesto infinito de amor das amuradas
brancas,
de distâncias brancas,
no meu céu de mar
azul.
Ah! Tenho as mãos cheias de momentos
que foram prece,
mágoa,
morte,
mar.

Tenho o peito enfunado como as velas
de toscas alegrias:
um doce canto de paz.

Lucimar.
Natal, 11 de fevereiro de 2015.

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Eu te ofereço

Um poema para hoje, tirado do meu próximo livro “Mar em mim”, já no prelo:

Eu te ofereço

Eu te ofereço a dor dos naufrágios sem poesia
a dor dos homens que se debateram inutilmente
na longa noite do mar.

Eu te ofereço o mistério desses barcos que se perderam
na fúria das rebentações
no passar dos furacões
e adormeceram insepultos no fundo dos oceanos.

Eu te ofereço o derradeiro grito
dos marinheiros que pereceram
pensando nos filhos em casa.

Eu te ofereço sobretudo o silêncio desta longa noite
que é como um vazio incomensurável
que se desprende da terra e ecoa pelos séculos:

o silêncio das velas que partiram e nunca mais voltaram
o silêncio das saudades nunca saciadas
o silêncio das mensagens nunca transmitidas.

Mas também te ofereço os abraços daqueles que chegaram
e a palavra daqueles que não sucumbiram.
Também te ofereço o bolsão das velas pandas
no azul das enseadas
e o despertar dos mastros no horizonte das esperas

e o arriar de panos
e o entrar de cabos
e o largar de ferros
e o descer de pranchas
e o sorrir tão largo esse sorrir selvagem
milagroso límpido
do marinheiro.

Eu te ofereço definitivamente esse sorriso:
gerado no ventre dos furacões
crestado no sol dos mormaços
alimentado na dor dos naufrágios.

Essa manhã de paz que vem como uma bênção
do coração do mar e que estremece a terra.

Lucimar.
Natal, 10 de fevereiro de 2015.

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Estrela triste

Por que as estrelas, em geral, são tristes?
Acho que sofrem de frio e solidão,
No espaço infinito.

Por isso, dedico-lhes, hoje, um poema, do meu próximo livro “Mar em mim”:

Estrela triste

Uma estrela triste
existe
em riste
neste
ocaso.

E foste
o Sol.
a luz te
ungia, templo:
em ti o tempo
se esqueceu de passar.

E a estrela triste
no ocaso ficou,
límpida, grávida,
no universo perdida,
milenar.

Lucimar.
Natal, 6 de fevereiro de 2015.

A imagem foi copiada da Internet, em: www.kareninefernandes.com.

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