Poesia do trabalho

Meu amigo Daltro de Oliveira, que registrou muitas de suas atividades em navios da gloriosa Marinha do Brasil, enviou-me a foto abaixo, como um desafio, alguns anos atrás. Tratava-se de uma faina em navio balizador, da Diretoria de Hidrografia e Navegação. Eis a resposta:

Poesia do Trabalho

Deve ser assim:
poesia do trabalho,
poesia da vida.

Poesia é sangue, é dor, é luta, é suor.
Não a poesia bonitinha do cartão postal,
mas aquela suada, da faina pesada:
rebocar a boia,
fundear na raia,
marcar posição.

Depois, ficar lembrando as boias da vida,
as raias da vida,
as posições da vida.

E, muito mais: as dores da vida, as fainas da vida.

Se você soube construir esse destino,
se você soube navegar esse navio,
se você soube ser esse marinheiro,

se você olhou na tarde o horizonte distante,
lembrando a casa que ficou pra trás,

se você guardou no peito as lembranças mais simples
de uma vida inteira de trabalho, inquietação, melancolia,
sentindo vento bater na cara,
água salgada entrar na roupa,
cabelo encharcado,
braços queimados de sol,
corpo cansado,

você, então, entende este poema,
e essa coisa boa que só a gente sabe,
que é ter morado no mar,
que é ter vivido no mar,
que é ter sido muito tempo homem do mar…

Lucimar.
Natal, 29 de novembro de 2014.

faina em balizador

Borboletas

Borboletas que voam, beleza que se espalha no ar. Belas borboletas são a imagem utilizada no poema de hoje, para falar de amor.

Borboletas

Borboletas livres são belas.
Porque a borboleta é bela.
Porque a liberdade é bela.

Mais belo que uma bela borboleta livre,
só um coração livre para amar.

Amor e liberdade são irmãos de sangue.
Não há amor sem liberdade.
Não há liberdade sem amor.

Sou livre para amar a minha amada.
Minha amada é livre para amar-me.
Eu e ela nos amamos, livremente, pela vida,
uma vida inteira de amor e liberdade.

Bela como a borboleta, minha amada
há de permanecer todo o tempo comigo,
juntos, eu e ela, libertos para sempre,
pelo amor eterno que nos une.

Lucimar.
Natal, 28 de novembro de 2014.

Imagem copiada da Internet em: oreinodosbichos.blogspot.com.

borboletas bailando no ar

Um sorriso

Minha primeira vida terminou a 23 de abril de 2007, quando faleceu Hildette, a primeira esposa, depois de longo sofrimento. No meio da saudade que chegou depois, recordei um fato ocorrido em seu último aniversário, a 28 de dezembro de 2006. Ela fazia 70 anos e estava muito esquecida, devido à doença.

Não houve festa, mas um bolinho com vela e a presença do nosso amigo Frei Nemésio e de algumas outras pessoas muito chegadas.

A magreza a deixava muito abatida. Sentada à cadeira de roda, junto à janela, cantamos “Parabéns” e o frade a abençoou com a “unção dos enfermos”.

Em certo momento, Hildette nos brindou com um luminoso sorriso. É sobre esse sorriso que fala o soneto abaixo.

Um sorriso

Com certeza, me lembro de um sorriso
Que ela abriu, neste canto, certa vez,
Embora não me lembre o que se fez
Pra ela rir desse jeito tão preciso.

Era um sorriso súbito, conciso,
Que aparentava muita lucidez,
Intenso, cordial, breve talvez,
Parecia um farol no rosto liso.

E me recordo tanto desse evento
Que o trago ao coração a toda hora
Pra sufocar meu longo sofrimento.

Nesse tempo de dor, que me devora,
Seu martírio a levou, em fogo lento,
Mas a imagem de luz não vai embora.

Lucimar.
Natal, 26 de novembro de 2014.

A fotografia foi tirada por mim, no dia 2 de maio de 2004. Hildette está ao lado de minha mãe, Maria de Lourdes.

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Navios de papel

Estou morando em Natal/RN pela quinta vez. A primeira, na infância, dos cinco aos 13 anos (1945-1953). Depois, já na Marinha, quando servi na Corveta “Forte de Coimbra”, entre 1966 e 1969. Voltei em 1973, para ser assistente do Comando Naval de Natal, ficando até 1975. A quarta vez, depois de conhecer a Edna, entre maio de 2008 e maio de 2009. Este último período foi especialmente inspirador, talvez pela lembrança da infância nestas terras, mas, principalmente, pelo recomeço da vida, depois de uma viuvez sofrida. Escrevi, então, vários sonetos, que publiquei em “Estado de Poesia” – editora Sebo Vermelho.

Passarei a mostrar alguns desses sonetos e o primeiro deles é uma recordação da meninice na Rua Araguaia, no Alecrim, quando aproveitava os rios de chuva para navegar com meus “navios de papel”.

Navios de papel

Meu sonho se perdeu, certa manhã,
Na casa branca, face desmaiada,
Paisagem singular, no chão plantada
Entre os pés de caju e os de romã…

O telhado da casa, em telha vã
Canalizava sempre a chuva ousada
Que desenhava rios pela estrada
Onde eu levava infância folgazã…

Nesses rios de chuva, aventureiro,
Brincava de navio, a vida ao léu
Comandante em meu sonho, marinheiro…

Se fixei meus desejos lá no céu,
Hoje aspiro a este sonho derradeiro:
Vim buscar meus navios de papel!

Lucimar.
A data original do soneto é “algum dia de 2008”.

Natal, 25 de novembro de 2014.

Não consegui na Internet uma imagem de criança brincando com navios de papel. Escolhi outra imagem, de chuva.

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Viver cada dia

Um novo poema, para alegrar nosso dia.

Viver cada dia

Viver cada dia é uma estratégia de felicidade.
Viver o sol ou a chuva,
o vento ou a tempestade,
a excitação ou o silêncio.
Viver a paisagem luminosa, o azul brilhante do céu
ou o ar pesado das nuvens no horizonte.
Viver a rua barulhenta, os carros que passam com pressa,
a gente que caminha na calçada.
Mas viver sempre, intensamente,
o momento, este agora.
Não pensar no sofrimento que pode vir amanhã
ou depois de amanhã,
na doença que se alastra,
no imprevisível futuro.

Eis o desafio deste dia.
Olho pela janela, vejo o tempo cinza, as nuvens carregadas,
a rua molhada, os prédios tristes.
Passo os olhos no jornal, escuto o noticiário.
Coisas do mundo. Coisas da vida.

O importante, hoje, é ser feliz.

Lucimar.
Natal, 24 de novembro de 2014.

A imagem foi copiada da Internet.

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Preparando a peixada

Um soneto escrito tempos atrás me incomodava. Eu achava que o motivo era forte, mas não gostava muito do ritmo dos versos. Embora alguns sonetos de grandes poetas alternem decassílabos heroicos e sáficos – veja-se o famosíssimo “Meu ser evaporei na lida insana”, de Bocage -, um sonetista menor como eu não se pode dar ao luxo de fazê-lo. Também não gostava muito do último verso. Este deve ser, segundo dizem, o “gran finale”, o momento máximo do soneto. Então, resolvi trabalhar um pouco mais nos versos e cheguei a este resultado:

Preparando a Peixada

Depois de sete dias, sem parar,
A pesca insana e insano o forte vento
E sol e sangue e dor e sofrimento,
Barco rude que enfrenta o duro mar,

Eu chego em nossa casa devagar,
O corpo em fogo, em fogo o pensamento,
Desses dias passados ao relento,
No desejo de ao ninho me deitar.

É noite. Tudo dorme. A lua é fria.
Me aconchego a teu lado e me reclamas:
A noite é nossa, encanta e contagia…

Hoje, limpando o peixe das escamas
Para o almoço festivo deste dia,
Ainda queimam meu corpo as tuas chamas!

Espero que apreciem.

Abraço afetuoso a todos os meus leitores,
Lucimar.
Natal, 23 de novembro de 2014.

A foto é de autoria de Daltro Ollveira.

Preparando a peixada

Encontro

Encontro

Um encontro de mãos,
e de peles,
e de dores,
e de sonhos,
e de cores…

Um encontro de vida
e de luz,
e de sombras,
e de sons,
e de anseios…

Um encontro no tempo,
na rua,
na lua,
uma trama
na cama…

Um encontro de duas almas,
duas palmas,
dois corações,
duas solidões…

Um encontro entre o sim e o não,
entre o ser e o não ser,
entre o dia e a noite,
entre mim e você…

Que o tempo esteja limpo,
que o mar esteja manso,
que o vento seja brisa,
que a vida seja alegre,
que os corações se agitem
de ternura e amor,
que as mãos se façam leves
como arcos de violinos,
que a inspiração desabroche
como rosas na manhã…

Que tudo se realize
sem ferir o véu de sonhos,
como um voo de pássaros no céu azul,
fazendo um “V” contra o infinito,
buscando alguma coisa além,
que não se sabe nem se quer saber,
mas que seja bela,
e que seja boa,
e que seja eterna…

Lucimar.
Natal, 23 de novembro de 2014.

A imagem foi copiada da Internet: contoeuconto.blogspot.com

casal na praia