Noite de amor

Hoje acordei com a lembrança de um belíssimo poema de Pablo Neruda, o Poema 18, da famosa coleção “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”. Vou transcrever, abaixo, o início de uma tradução livre desse poema, para nossa língua:

“Aqui te amo.
Nos obscuros pinheiros o vento desenlaça.
A lua fosforece sobre as águas errantes […]”

Pablo Neruda.

Inspirado nesse poema, escrevi um outro, que repasso a meus amigos:

Noite de amor

Se você quisesse, poderíamos fazer desta noite
uma noite de amor, uma longa, interminável, maravilhosa
noite de amor.
Poderíamos semear de estrelas nosso céu,
e fazer esta lua, cheia e branca,
banhar de luz nosso quintal.

Se você quisesse, poderíamos beber o vinho das lembranças, de cada dia, de cada hora, de cada instante
de nossa vida em comum.
Poderíamos comer o pão da esperança,
que alimenta nossos sonhos de viver juntos,
unidos, lado a lado, sem rusgas, sem separações.

Se você quisesse, poderíamos sentir de novo o batimento
do coração de nosso filho, pequenino, no santuário do seu ventre.
E escutaríamos em silêncio
cada impulso de sangue, cada batida compassada,
como notas musicais, compondo a sinfonia única
de nossa união sagrada!

Só depende de você.
Só depende de você.
Só depende de você.

Lucimar.
Natal, 31 de outubro de 2014.

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Sangue de abismos

Um poema para hoje:

Sangue de abismos

contemplo tua força
brotando em terra bruta,
árvore-mulher,
sangue de abismos,
floresta de silêncios.

contemplo tua beleza,
nascendo como a fonte,
rio-mulher,
berço da existência,
cachoeira de desejos.

contemplo tua alegria,
brilhando como o sol,
luz-mulher,
estrela,
milagre da Vida.

mulher,
companheira,
ombro a ombro comigo,
em meu caminho.

Lucimar.
Natal, 29 de outubro de 2014.

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No meu navio

Só quem serviu à Marinha de Guerra ou Mercante – ou a qualquer outra instituição que exija grande ausência de casa – sabe o que é esta ausência.
Longe de casa, o marinheiro mergulha no trabalho, no convés ou na máquina, nas fainas comuns e especiais, no adestramento e na rotina. Mas, quando chega a noite, em seu beliche, ele recorda cada detalhe, cada momento, cada dia de convivência, com mulher e filhos, e a saudade bate. Com muita, muita força. Bem no coração.
É o que eu quero dizer no poema abaixo, que escrevi em 1976, quando servia no Navio Escola “Custódio de Mello”, como instrutor de navegação de guardas-marinha.
Eis o poema:

No meu navio

No meu navio há caminhos
que vão a toda parte e parte alguma.
Há pontes, corredores, tombadilhos e quilhas
abrindo o mar como navalhas,
há milhares de silêncios pervagando vigias
e homens debruçados na tarde
e rostos e mãos e passos,
que se perdem de caminhos imaginários,
que vão a toda parte
e parte alguma.

No meu navio há muita gente
e, de noite, quando baixa o silêncio
e pesa densamente sobre conveses e mastros,
a gente se apequena e se guarda
e se recolhe na saudade imensa
de sua própria casa sonhada
e crianças correm nos corredores
e parques cheios de sol
e praias e ruas surgem inesperadamente
e em algumas centenas de beliches
a noite é como um misterioso e silencioso
jardim,
onde praças e cidades,
esposas e filhos,
irmãos e irmãs e mães e pais
confraternizam
e sorriem e conversam e vivem e amam
e há sempre neles a distância,
há sempre no ar a presença das ausências,
que se ergue imensa e pelo mastro afora
rompe o fundo abismo dos céus estrelados,
das constelações e das galáxias,
mastro infinito e plástico,
noite, dor, prece,
mastro líquido

por onde o mar se esvai,
por onde todas as estrelas e todos os parques
e todas as casas e todas as ruas
sobem, lágrimas, límpidas, lúcidas,
e se fazem estrelas e semeiam a noite
de novos e intermináveis caminhos.

No meu navio, os caminhos de ontem
são os caminhos de hoje e são os caminhos
de amanhã.
O passado, o presente e o futuro
são uma só e mesma saudade,
os dias se cansam de existir e caem trôpegos,
no chão dos camarotes,
nos alojamentos e nos refeitórios.

Há pessoas que passam anteparas,
há anjos guarnecendo praças de caldeiras…

No meu navio,
o ontem é, o amanhã já foi, o agora nunca será.
É sempre o eterno amanhecer das presenças requeridas,
é sempre o eterno cais chegando, a pedra cinza do cais
se aproximando e vindo
ao encontro do costado e, entre eles,
costado e cais,
os abismos, as distâncias, o tempo e o espaço
são apenas o elo, imponderável,
entre sonho e realidade,
entre ser e não ser,
entre tudo e nada.

No meu navio, os caminhos
que me levam ao norte
são caminhos de encontrar você.

Lucimar.
Natal, 26 de outubro de 2014.

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Acróstico

Como ontem falei da Ana Padilha, quero lembrar a outra filha, também muito amada, uma artista de elevada sensibilidade, Liana Padilha. Abaixo transcrevo um acróstico que fiz para ambas. As letras iniciais dos versos falam: “Liana e Ana”:

Linda onda, onda linda,
imersa em sonho e desejo,
anda o Mundo em noite infinda,
navega este espaço andejo,
acorda na Terra ainda!

E, longe, é só o que vejo:

Anda a onda, nunca finda,
na canção de um realejo,
anda a onda, linda, linda…

Lucimar.
Natal, 24 de outubro de 2014.

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Laço perfeito

Entre meus filhos, quem mais tempo viveu em casa foi a Ana. Dessa extensa convivência, restou uma grande confiança mútua que, ainda hoje, me conforta em momentos difíceis. Costumo dizer que Ana é uma das minhas conselheiras preferidas. Quero lembrar, aqui, um poema que a ela dediquei, em sua infância.

Laço perfeito

Me orgulho de ser seu pai,
seu amigo, seu irmão,

ser menino com você
nos momentos de ilusão,

ser criança de correr
pelo sol, sem direção,

pelo tempo, pela vida,
descartando a solidão…

Me orgulho de ser seu pai,
caminhando em todo chão,

descobrindo a flor do sonho
no jardim do coração,

nós dois, amigos, sinceros,
pai e filha, em comunhão,

trazendo o laço perfeito
de carinho e afeição

cada passo, cada frase,
cada gesto, cada mão.

Lucimar.
Natal, 23 de outubro de 2014.

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Pai e filha 2

Dores de parto

Hoje, uma reflexão sobre a miséria.

Dores de parto

Misericórdia, de belas palavras,
Frases de pena e agonia vã,
Misericórdia que, entre dois uísques,
Enleva a alma altiva e cidadã,
Misericórdia, analgesia cara,
Da consciência que se diz cristã…

Mas a verdade é outra, muito outra,
E estamos longe, bem longe, do ideal:
A verdade má, que nos fere e acusa
Da fome e da sede, de miséria, afinal,
Deste mundo que, inóspito, agoniza,
Em dores de parto e desamor fatal!

Lucimar.
Natal, 22 de outubro de 2014.

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Dores de parto

Ser livre

Ser livre

Ser livre.
Sem algemas.
Voar sobre os telhados
Como o albatroz sobre as ondas.

Ser menino vadio
No vento solto da tarde,
Peito aberto, mãos vazias.

E adormecer sob as estrelas
Sem medo,
Disposto a sonhar
E construir o mundo.

Ser livre.
Como um dia fomos todos nós,
Antes de conhecer a trama louca
Que é despertar aqui,
Nesta vida.

Lucimar.
Natal, 19 de outubro de 2014.

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