Lírios

Mudando o tom: agora um poema menos sombrio:

Lírios

“Olhai os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles.” (Mateus 6, 28,29).

Olhai os lírios: contentes,
Sem trabalho ou fiação,
Ostentam vestes ardentes
Em cada flor ou botão…

E tais vestes, cintilantes,
Brotam lindas, da raiz,
Brilhando, quais diamantes:
Dizer por quê, ninguém diz…

Como as viagens da alma
Que não sei pra onde vão,
Os lírios, na tarde calma,
Encantam meu coração…

Amarílis, lílium, crínum,
Hemerocális, vorsleia,
São tipos que se combinam
Desta planta em odisseia…

Ela é dom da natureza,
Da divina compaixão,
Ninguém com tanta nobreza,
Nem mesmo o Rei Salomão!

Lucimar.
Natal, 14 de setembro de 2014.

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Lírios

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Espelho

Lembrando um velho amigo, que me inspirou esses versos, publico hoje um soneto, escrito alguns anos atrás:

Espelho

Passei a vida em vão, não caminhei direito,
Não floresci no campo, como os alvos lírios,
Deixei passar os anos, loucos, como círios,
Abrindo o coração, o corpo insatisfeito.

Mas sempre procurei descobrir algum jeito
De encher-me de ilusões e sonhos e delírios,
E, se amores não vêm, o dinheiro adquire-os,
Seguindo a fantasia deste mundo estreito.

Contudo, em desespero, vendo o fim por perto,
Eis que busco ao redor e não vejo ninguém
Que pise, igual a mim, este pobre deserto.

Só me resta sonhar que minha alma, porém,
Como a andorinha errante, neste tempo incerto,
Há de encontrar lugar, no amanhã que já vem.

Lucimar.
Natal, 12 de setembro de 2014.

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Meridiano

Reconheço que meu poema de ontem, “Viajante”, era muito ardente. Hoje vou variar, trazendo o soneto “Meridiano”, que escrevi a 13 de março deste ano, num diálogo muito produtivo com o grande poeta e amigo Roberto Lima de Souza:

O Verdadeiro Meridiano

Neste tempo de dor e desengano,
Quando já chega o outono da agonia,
Pra encontrar e gozar da luz do dia,
É que persigo o meu meridiano.

E se a vós vos parece que me ufano
Dessa linha sutil da Geografia,
Eu vos digo que é pura fantasia
A dos mapas, traçados sobre o plano.

Pois a verdade clara é que este Norte
Desde a mais tenra infância eu já sabia
Quanto é Luz, quanto é Santo, quanto é Forte!

E é aquele que crê, que se extasia
Durante a vida e até depois da morte,
Mais do que sonha a vã filosofia!

Lucimar.
Natal, 9 de setembro.

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Viajante

O poema de hoje é proibido para menores:

Viajante

Lábios quentes, vermelhos, entreabertos,
Que aos meus juntei num jogo de ternura,
Lábios de mel, de sal, de sol, despertos,
Como a lua no céu em noite escura.

Que eu beijei tantas vezes, fascinado,
Olhos fundos, sentindo o rosto em brasa…
O corpo em fogo ardente, do teu lado,
No silêncio secreto desta casa.

Túrgidos, tensos, pequeninos brotos,
Os seios em botão, doce agonia,
De anseio e de desejo semirrotos,
Erguiam-se num mar, que enlouquecia.

Querendo beijos, implorando o toque,
Só pedindo meus lábios, arquejantes…
Mas eu, sem ter mais força, a teu reboque,
Pra curar teus desejos como dantes.

E era cálido, límpido e macio,
O gosto de tal água cristalina,
A descer-me na boca como um rio,
Puro sabor de seiva feminina.

Língua livre, lambendo-os, sem receios,
Enquanto os acendia em gestos sábios,
Transformava em faróis esses dois seios,
Fontes de luz na noite dos meus lábios.

Os ombros torneados, monumento
Estendido nos braços, sobre a cama,
Molduravam teu corpo, em ritmo lento,
Terno e doce, em que a alma se derrama.

A cintura delgada, a curva mansa,
Ao centro, um vale imenso que desmaia
Continha o peito místico que avança,
Como a onda do mar, batendo à praia.

Minhas mãos percorreram tais distâncias,
Querendo conhecer-te o palpitar,
E, a queimar de agonia e de outras ânsias,
Alçaram voo, enfim, no imenso mar.

Enlaçando teu corpo, em febre ardente,
De paixão e de sonho, como um rei,
Eras fêmea em lençóis e eu ferozmente
Em clarões de luar… me abandonei…

O dorso, lindo, lento, semovente,
De volteios sutis em seus dois lados,
Nas rajadas de vento persistente
Deixa os barcos, no mar, desamparados.

Bastos cabelos, curvas desenhadas,
A cintura delgada por detrás,
Femininas ternuras bem traçadas,
E esse encanto fatal que a carne traz.

Não pude me conter, ao ver-te, ansiosa
E te cobri de beijos, em torrente.
Tu, que eras leve, livre e misteriosa
Mas fugias de mim, precocemente.

A sustentar a fúria dos tornados,
E estertores de horror, vindos da rua,
Sobre os panos da cama, amarfanhados,
Resplandecia aquela deusa nua.

Pernas longas, elásticas e quentes,
Num corpo de mulher, mais que perfeito,
Como raios de sol de tão ardentes,
Restavam soltas, lindas, sobre o leito.

E, no centro, uma flor que reluzia,
Um pequenino corte tremulante
Tinha a delícia augusta da ambrosia,
E esperava a invasão do viajante.

Que dizer desta carne que é tão bela?
Como expressar o que ela mostra e esconde?
O que falar desses mistérios dela?
Onde encontrar o seu segredo, onde?

Pelo cheiro das ostras milenares,
Pelo gosto das algas e das rosas,
Entrando em meu sentido finos ares,
Por narinas ardentes e curiosas.

Pois esperas meu toque e te incendeias,
No tremer embriagante desse espinho:
E se juntam, sem susto, entre candeias,
Meus desejos e os teus num mesmo ninho.

Por isso me perdi na correnteza
Da ânsia que, infinita, o peito invade,
Querendo, sim, que a própria natureza
Ao máximo chegasse de ansiedade.

E eu penetrei, enfim, no teu segredo,
Em tensões repetidas de batalha,
E nós dois cavalgamos, sem ter medo
Nas estrelas de luz que o céu espalha!

Lucimar.
Natal, 8 de setembro de 2014.

Poema escrito em setembro de 2008.

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Desire

Chuva Fria

Para o fim de semana, um poema que exprime a saudade de alguém que partiu:

Chuva Fria

Já faz um tempo que essa chuva fria
Enche-me o coração enamorado
De insólita lembrança do passado,
Saudade, enfim, da tua companhia.

E vejo, pelas frestas da agonia,
Rua molhada, o amor de braço dado,
Casal feliz andando lado a lado,
E o espectro de luz que o denuncia.

Guarda-chuvas desfeitos pelo vento,
Crianças em vidraças, folhas nuas,
Toldam-me a alma em dor, neste momento.

E, como já partiste há muitas luas,
Saio então, mundo afora, passo lento,
A procurar-te, louco, pelas ruas.

Lucimar.
Este soneto foi composto a 15 de agosto de 2007.

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Mundo Caduco

Um soneto, hoje, para reflexão:

Mundo Caduco

Sentei-me nesta praia, olhando o mar.
Há pouco vento, apenas uma brisa
Que sopra leve, anêmica, indecisa,
Entre a luz do farol e o quebra-mar.

Aqui cheguei bem cedo, pra pensar
Sobre um mundo caduco, que agoniza
Sem destino, sem fralda e sem camisa
Sem direção, sem norte e sem altar.

Na linha do horizonte, em tons vermelhos,
Vem o Sol, preguiçoso, despertar
A Terra, com seus múltiplos espelhos.

E eu sei que nada, nada vai mudar,
Não interessam preces nem conselhos,
Mesmo que eu fique aqui, olhando o mar.

Lucimar.

Natal, 4 de setembro de 2014.

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Restos

Minha amada viajou. Por isso, lhe dedico este soneto de hoje:

Restos

Na penumbra da sala, amarelado,
Jaz um toco de vela carcomida,
E eu me curvo, em silêncio, sobre a vida
Que nós dois construímos no passado.

Acendo a vela e o canto iluminado
Acorda a noite. A sala adormecida
Parece um cais em tempos de partida
Dos sonhos que vivemos, lado a lado.

Já não quero ficar aqui sozinho,
Pois o tempo passou e o teu carinho
É tudo que me anima nessa estrada…

Restamos nós, assim, homem-mulher,
Não como exemplo de um casal qualquer,
Pois se não tenho a ti, não tenho nada!

Lucimar
Natal, 1º de setembro de 2014.

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