Poema para um sábado

Poema de hoje:

Poema para um sábado

À mulher amada

Quero te dizer coisas neste sábado
que sejam poesia aos teus ouvidos:
mas serão somente tuas.
Versos com os quais cobrirás teu corpo
ao dormir
palavras que encherão os espaços vazios
do teu quarto.
Quero te dizer coisas assim
de todo estar perto confidente
silencioso mágico.
Coisas com as quais adormeças, criança
mulher
no azul do teu sorriso.

Quero te dizer coisas neste sábado
neste tempo
que passem como o tempo
mas que fiquem eternamente aos teus ouvidos
como sinos repicando, soando
comprazendo teu meigo coração.
Dizer-te coisas perto
junto, compactantes
silentes, lúcidas
que queimem teu sossego
que entrelacem teus seios brancos
que beijem teus lábios calados.

Que em tuas mãos se ergam catedrais 
como imensos jardins suspensos
que em tua voz se desate o canto apaixonado
das mulheres esquecidas
que teu corpo seja a terra 
que meu corpo seja o sol ou sejam sóis milhares
sóis galácticos sidéreos
a te abraçar e fecundar e conduzir em chamas gritos dores
teu corpo-terra teu silêncio-terra
tua morte.

Quero te dizer coisas neste sábado
que sejam música
mas que te perturbem
que te façam estremecer de susto
de agonia.
Coisas que te despertem
que te levantem da cama
que te espantem.

Quero te dizer coisas que estão em mim
desde toda aurora
desde toda antiga cicatriz.
Que sejam o cantar apaixonado dos menestréis
mas que tragam o gosto das nênias
como cinzas desfeitas ao vento.
E que permaneçam
que continuem
que caiam sobre ti como noite
sereno, chuva fina
penetrando a roupa, a carne
os ossos
a medula.
As coisas que eu te disser hão de tocar-te
hão de envolver-te
hão de devolver-te ao limbo dos amantes
que esperam desesperados a volta 
dos que partiram.

Há de cair sobre ti o espírito das antigas mulheres
que espreitavam junto ao mar
os seus guerreiros.
E todas as torres de igreja 
e todas as tardes profundas
e todo lento anoitecer
te aniquilem de repente e te façam recordar com ânsia
a minha presença
a densidade do meu ar
a exata medida de minhas mãos 
e dos meus ombros.

Ah! e lembrarás que eu te disse tantas frases
que pareciam perder-se e no entanto renascem
ressurgem
extraordinárias, transfiguradas
de dentro de tua memória.
E lembrarás que estivemos juntos
que nossas mãos se tocaram
se mediram se pediram.

Que em tuas mãos cresça a noite
e teus dedos sejam mastros de navios perdidos
e tua voz contenha o lamento
dos que jamais voltaram.
Que teu corpo seja o mar
e nele eu permaneça para sempre
náufrago
poeta 
vagabundo.

Lucimar.
Natal, 30 de maio de 2014.

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Noites e noites

O poema de hoje foi escrito em Brasília, DF, em 1987, quando eu lá servia. Ele foi dedicado, à época, a minha esposa Hildette, que faleceu em abril de 2007.

Noites e noites

Eu sei que estive aqui em outro tempo
eram grandes as janelas
e vasto o vento que batia as cortinas de açoites
e noites
e noites…

E lágrimas descendo dos teus olhos
vãos
como pontes e sombras
e noites
e noites…

Eu sei que estas janelas
e estes quadros
e estes livros
faziam desta sala a sala de outro tempo
onde estavas e eu
navegando em silêncio o teu quarto
me feri marinheiro de sonhos
e noites
e noites…

E menino fugi dos teus braços
em árvores e cercas e
cemitérios e desertos
caminhando ou cavalgando
as dunas e os alísios
como ondas de naufrágio
e dorso de antibrisas
e em lagos mergulhei
pra te buscar e te amar
e te matar, de punhais
e de coitos
e noites
e noites…

Eu sei que te conheço de outras eras
quando eras
mais que mulher ou sereia
ou anjo das esferas
menina que descia lágrima em meu peito
e me escorria lúcida de esperas
de ficar e partir
e nunca mais e para sempre
ir, no véu dos tempos,
caos da primitiva tarde
crepúsculo da antecriação
sol de fogo, brasa que se faz
carvão
e noites
e noites
e noites…

Mulher das minhas noites
fera das minhas noites
face branca e seios lívidos
cálice
das minhas noites.

Natal, 24 de maio de 2014.

A imagem que ilustra este poema é uma cópia de “A Noite Estrelada”, de Vincent Van Gogh, obtida na Internet.

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Primeira noite

Poema de hoje:

Primeira noite

Fez-se a primeira noite
como o primeiro canto
de amor.

Foi escurecendo em toda parte,
lentamente,
ao largo e na montanha.

Os navios adormeceram
no cais de luzes pálidas,
pisca-piscando sonâmbulos
de mar.

Os barcos de pesca se recolheram
cheios de sombra e solidão
às enseadas calmas
da noite fria.

Eu
aqui
cochilo
minha ânsia noctívaga.

Natal, 20 de maio de 2014.
Lucimar.

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Homem diante do mar

Servi muitos anos à Marinha do Brasil, uma instituição de honra e trabalho. Entre tantas experiências, uma marcou minha alma de modo especial: a vida no mar. Já apresentei aqui alguns poemas de temática marinha, testemunhando tal impressão, profunda e indelével. Eis mais um desses poemas:

Homem diante do mar

O mar me fez
calar:

sua profundidade, sua desmedida
presença,

o torvelinho das expectativas
sem solução,
mergulhos imaginários que perseguem
o infinito desejo,

a perda do sentido
(ou dos sentidos)
do adeus,

a fuga dos horizontes
imperscrutáveis,

a multiplicação das ondas
no açoite vário
dos ventos.

E, por calar-me
ante o mar profundo,
recolho, em meu silêncio,
a dimensão
de estar só.

Natal, 17 de maio de 2014.
Lucimar.

Este poema foi publicado no livro “Cais da Noite e Outros Poemas”, em 1989.
A imagem foi copiada da Internet.

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Você me tocou

Ainda um “poema de paixão”, para os que apreciam. Este vai dedicado à minha amada.

Você me tocou

Você me tocou. Agora me aguente.
Você me chamou. Agora me escute.
Você se revelou. Agora me deixe falar.

Quero você. Não importa quando,
não importa como,
não importa nada: quero você,
que-ro vo-cê.

Será um dia de sol ou chuva,
calor ou frio?
Não importa.
Será de noite? Será de dia?
Será em Marte? Será na Lua?
Será janeiro? Será dezembro?
Mas será.
Será.

Como todo ano
um falcão ao ninho,
eu serei cigano,
chegarei sozinho…

Chegarei, que seja
leve como a brisa,
toda vez que beija
nem sequer avisa…

Chegarei pirata,
ou cristão ou mouro,
eu serei de prata,
ou serei de ouro…

Estarei no espaço
como o pensamento
sem medo ou cansaço
com as asas no vento…

Já não sei ao certo
como vai ser isto,
coração aberto,
quero ter, insisto…

Que será um dia
comum, de semana,
de luta e porfia,
mas será na cama…

Ou será na duna,
no chão do deserto,
ou na minha escuna,
pelo mar aberto…

Navegando estrelas
de invisíveis asas,
Sonharei ao vê-las
indo sobre as casas…

Me fazer menino,
homem sem juízo,
sem vergonha ou tino
neste paraíso…

Pra dizer que amo,
pra dizer que quero,
pra dizer que chamo
a você, que espero…

Espero na estrada,
na rua, no campo,
nos confins do nada,
vou ser pirilampo…

Nos confins da vida,
como um novo ensejo
minh’alma partida
de dor e desejo…

De amar com ternura
a mulher que um dia
deu-me à alma impura
tal melancolia…

Que até hoje sinto,
eu sei e não minto,
no meu peito em sangue?
Mesmo que se zangue
por esta insistência,
vou pedir clemência
e esperar que chegue,
venha, não me entregue
ao limbo dos sonhos
dos homens tristonhos
que vivem chorando,
ao inferno eu mando
toda esta prudência,
quero sua essência…

Quero você. Não importa quando,
não importa como,
não importa nada: quero você,
que-ro vo-cê.
Entendeu?

Lucimar.

Natal, 15 de maio de 2014.

A imagem foi copiada da Internet.

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Minha casa, meu cais

Para meus amigos, transcrevo hoje uma adaptação do poema que deu origem a meu primeiro livro de memórias, “Minha Casa, Meu Cais”, lançado aqui em Natal, em 1995, na Academia das Artes.

Minha casa, meu cais

Minha casa é meu lugar.
Espaço onde fundeio, como o veleiro na enseada.
Tem jeito de rede,
de varanda, de brisa.
Janelas abertas para o universo,
por onde chega o céu e tudo o mais
que ele contém.

Por onde o sol se derrama, aos borbotões,
em ouro derretido.
E a lua nua amua o trovador
e se desfila ao léu, no céu, o despudor
de seus encantos lassos,
fluindo e refluindo o mar,
na cheia e na vazante dos meus passos!

De onde espio estrelas solitárias
em seu brilho triste,
ardendo em fogo aflito.
E por onde parto e me parto
e me reparto,
para viagens no sempre, no infinito,
da solidão imensa do meu quarto.

Janelas que pendem sobre telhados e abismos,
e rios que correm para o mar sem fim.
Janelas em perspectiva,
onde a alma descansa olhos perdidos,
nas estradas da vida, mundo afora.
Janelas entreabertas, sonolentas,
bocejando abandono.

Minha casa tem silêncios pelos cantos,
que percutem as horas noturnas, como sinos,
marcando o passar do tempo, lá fora.
Porque, em minha casa,
mesmo o tempo é eterno.

Minha casa, meu cais.
Meu segredo, meu descanso.

Para curtir e recurtir
os meus e os teus dias.
Nossos dias.
Não os do passado, mas os de hoje
e de amanhã.

Que sejam como os da colheita,
de quem plantou e trabalhou a terra.

Dias de olhar o campo e ver o trigo maduro,
soprado pelo vento, em ondas.

Dias sem fim, de janelas ao sol,
de peixe frito na brasa, na varanda,
comprado ao pescador, direto, na praia.

Dias de lembranças,
de estender até tarde e falar tanta coisa,
espichando o tempo,
tomando vinho branco devagar.

Dias sem relógio, ouvindo o som do vento,
nós dois na rede, conversando em silêncio,
os filhos já crescidos, pela vida.

Dias, enfim, de não mais ficar longe,
nem partir,
nem fugir,
nem machucar,
as mãos dadas, pelo mundo afora.

Por esses dias, esperei toda a minha vida.

Lucimar.
Natal, 13 de maio de 2014.

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Família

Hoje, Dia das Mães, transcrevo um soneto que fala da Família. Elas são a Alma de todas as Famílias!

Família

Na família nasci e me fiz gente,
Aprendi que a virtude vale a pena
Formei um cabedal, botei em cena
O drama de viver e andar em frente.

Não me faltou em casa a cama quente
Nem o pão com café na tarde amena,
Pra sentar e estudar, com força plena
Graças aos pais que tive, felizmente.

Assim cresci, vivi e achei meu rumo
Na direção do bem, da retidão,
Casei-me, tive filhos, sempre a prumo.

Meus netos e bisnetos chegarão,
Mas a história merece este resumo:
Na família formei meu coração.

Lucimar.
Natal, 11 de maio de 2014.

Este poema foi publicado no meu livro “Estado de Poesia”, de 2008.

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