Canção abençoada

Na esteira do soneto de ontem, deixo este outro, de tema semelhante, agradecendo a todos os amigos que curtiram, comentaram e compartilharam a homenagem a minha mãe. Escolho outra fotografia, da mesma festa dos 95 anos dela, dois anos atrás, pois foi certamente a última reunião de família em que ela conversou, cantou, aplaudiu, até dançou comigo. Aí vai o soneto:

Canção Abençoada

Ainda hoje, contrito, escuto o canto
Na voz de minha mãe, eu pequenino,
Aquecendo-me ao colo o corpo fino
Que cobria do frio, com seu manto.

A canção era simples, de acalanto,
Um solfejo bem terno, como um hino,
Na escala musical, um som divino,
Uma prece que, n’alma, escuto tanto!

E então eu cochilava, satisfeito, 
Sugando o leite morno de seu peito,
E ouvindo essa canção abençoada.

Quando meu pai chegava, ao fim do dia,
Minha mãe o abraçava, com alegria,
Pois no reino do Amor não falta nada!

Lucimar.
Natal, 30 de abril de 2014.

O poema foi composto para o livro “Estado de Poesia”, publicado em 2008.Imagem

Soneto à Mãe Amada

Hoje vou relembrar a vocês que cuido, aqui em casa, de minha mãe, que vai fazer, a 16 de junho próximo, 97 anos. Ela está bastante fragilizada, permanentemente acompanhada de Cuidadoras que se revezam e, além disso, assistida por uma empresa de Home Care. Contudo, quando de alguma forma desperta de seu longo sono, é uma joia de ternura e carinho. Não sabe mais expressar em longas frases seus sentimentos, mas sussurra “Deus te abençoe” quando peço a bênção, beija minha mão, esboça um leve sorriso.

O soneto abaixo, que dedico a ela, foi escrito quando eu morava aqui em Natal – entre maio de 2008 e maio de 2009 -, na verdade a 28 de agosto de 2008, e a fotografia que o acompanha foi tirada em 16 de junho de 2012, na festa dos 95 anos dela, no Rio de Janeiro. Na foto, ela está entre minhas quatro netas cariocas, Fernanda Nascimento, Thaís PadilhaMariana Padilha e Marcela Nascimento.

Eis o soneto:

Soneto à Mãe Amada

À minha mãe, Maria de Lourdes.

Quis compor um soneto à minha mãe, somente,
Um soneto de luz, de um filho agradecido,
Que lhe dissesse o quanto o coração ferido
De gratidão se faz cativo, reverente.

Quis dizer as palavras que minha alma sente
Quando recorda a infância, esse tempo perdido,
Caminho que passou, entre sonhos contido,
Fogo-fátuo de amor, desilusão ardente.

Nem pude começar a escrever, no entanto,
Pois, vencido de intensa e terna comoção,
Ao buscar as ideias, tropecei em pranto.

Nesse instante, a Mãezinha me tomou na mão
E me pôs em seu colo, e cantou o acalanto
Que lhe chegava agora ao santo coração.

Natal, 28 de agosto de 2008, 17 horas.

Publicado a 29 de abril de 2014.

Lucimar.
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Arlequim

Desde sempre admirei, em especial, um soneto de Bocage, cujo sentido profundo, de paixão e vida, me encantava. Transcrevo-o abaixo, para recordação dos amantes da Poesia: 

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!… Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Tenho um amigo, que considero irmão – e de “Mano” nos tratamos ambos –, a quem dediquei um soneto, que de algum modo se inspira neste de Bocage.

Arlequim

Procurar a paixão foi sempre uma agonia,
Pois, de tanto fazê-la o pão da minha mesa,
Deixei-me seduzir por encanto e beleza
E esqueci de viver a vida que devia…

Arrastei-me a seus pés, vesti tal fantasia
De palhaço do sonho, arauto da tristeza,
E, arlequim solitário, acabei sem defesa
Cativo da quimera, escravo da alegria…

E, chegando a este chão real, sem falsidade,
Choro a dor de viver em sonho e desperdício
E ter jogado fora a vida e a mocidade…

E, se sinto tão fundo a dor de cada vício,
É que eu sei que essa angústia imensa que me invade
Vem perto do meu fim, e não do meu início.

Lucimar.
Natal, 26 de abril de 2014.

Este soneto foi inicialmente escrito para o livro “Estado de Poesia”, publicado em 2008, mas recebeu hoje alguns retoques.

A foto da máscara, que lembra o arlequim, foi copiada da Internet.

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Velho pescador

Um poema, na verdade uma releitura de poema, a partir de um rascunho datado de 8 de junho de 2003, inspirado pela foto de um velho pescador na praia de Jupatituba, no Pará. A fotografia foi enviada por Daltro Oliveira.

Velho pescado

O velho pescador ensinou-me este silêncio,
o silêncio da espera, entre o mar e a vida,
e a alegria do peixe bem fisgado,
lutando contra a morte.

O velho pescador ensinou-me o gosto do sal,
do sal de ventos engelhados e frios,
entrando pela roupa, rasgando o peito,
ferindo a alma de antigas lembranças…

Tão antigas
que pareciam mortas.

O velho pescador ensinou-me que o tempo passa
no bater das ondas sobre as pedras,
no paciente preparar das tralhas,
e no lançar dos anzóis…

Como o cair da tarde e o chegar da noite.

Mas acima de tudo ele me ensinou,
a custo de muito pescar e de muito esperar,
que nesta vida tudo é eterno.

Lucimar.

Natal, 25 de abril de 2014.

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Uma gatinha

O poema de hoje é uma homenagem especial a uma pessoa especial, que eu muito amo, a menina que cuidou da gatinha da história.

Uma gatinha

Passou aqui em casa
um gatinha:
dengosa, silenciosa, cheia de segredos.

Passeava por todo canto em suaves meneios,
alteando o dorso e levantando a cauda.

Parecia um arco de violino a cauda refinada,
desenhando no ar bemóis e sustenidos.

Passou por aqui
a gatinha manhosa,
cheia de silêncios e segredos.

Depois, ficou uns dias na rua, vivendo a vida,
e voltou coquete, experiente, arrepiada:
uma gata-astuta, batuta, quase prostituta.

Nunca mais foi a mesma, a nossa gata,
miando pela casa,
os olhos lânguidos perdidos ao luar.

Um belo dia, foi-se embora.
ninguém soube por que
nem pra onde.

Talvez para o céu dos felinos imortais,
dos plenilúnios e dos novilúnios,
recobrar a inocência primitiva,
que perdeu ali, naquela esquina,
naquele bar, naquela rua.

Lucimar.
Natal, 22 de abril de 2014.

Esta é a história real de uma gata que minha filha mais nova trouxe para casa. Ela fugiu e foi encontrada, mas já tinha sido conquistada pelo mundo vadio. Aconteceu há mais de vinte anos.Imagem

Eu te ofereço

Entre as cantigas d’amigo do século XII, da região do Entre Douro e Minho, em Portugal, havia as “cantigas marinhas ou barcarolas”, em que o “eu lírico”, a mulher, falava de seu amor, de seu amigo, cuja ausência se devia ao mar. A interlocutora preferida dessa mulher queixosa era sua mãe – “madre”, em galaico-português, nossa língua, em sua origem. Havia quase sempre uma torre de igreja próxima, junto ao mar. O autor da cantiga que abaixo cito é Paio Gomes Charinho:

Ai, Sant’Iago, padron sabido,
vós mi-adugades o meu amigo
sobre mar vem quen frores d’amor ten:
mirarei, madre, as torres de Geen…

Ai, Sant’Iago, padron provado,
vós mi-adugades o meu amado
sobre mar vem quen frores d’amor ten:
mirarei, madre, as torres de Geen…(*)

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A essa mulher, que espera seu amado junto ao mar, desejo responder, com o poema de hoje:

Eu te ofereço

Eu te ofereço a dor dos naufrágios sem poesia
a dor dos homens que se debateram inutilmente
na longa noite do mar.

Eu te ofereço o mistério desses barcos que se perderam
na fúria das rebentações
no passar dos furacões
e adormeceram insepultos no fundo dos oceanos.

Eu te ofereço o derradeiro grito
dos marinheiros que pereceram
pensando nos filhos em casa.

Eu te ofereço sobretudo o silêncio desta longa noite
que é como um vazio incomensurável
que se desprende da terra e ecoa pelos séculos:

o silêncio das velas que partiram e nunca mais voltaram
o silêncio das saudades nunca saciadas
o silêncio das mensagens nunca transmitidas.

Mas também te ofereço os abraços daqueles que chegaram
e a palavra daqueles que não sucumbiram.
Também te ofereço o bolsão das velas pandas
no azul das enseadas
e o despertar dos mastros no horizonte das esperas

e o arriar de panos
e o entrar de cabos
e o largar de ferros
e o descer de pranchas
e o sorrir tão largo esse sorrir selvagem
milagroso límpido
do marinheiro.

Eu te ofereço definitivamente esse sorriso:
gerado no ventre dos furacões
crestado no sol dos mormaços
alimentado na dor dos naufrágios.

Essa manhã de paz que vem como uma bênção
do coração do mar e que estremece a terra.

(*) Quando eu fazia Português-Latim, na Universidade Gama Filho, representei aquela universidade no Colóquio Luso-Brasileiro Universitário, em 1970, durante o qual apresentei o trabalho “Origens da Poesia do Mar”. A pesquisa que resultou nesse trabalho, eu a fiz no Liceu Literário Português, no Rio de Janeiro, onde encontrei 17 das 24 marinhas ou barcarolas sobreviventes, segundo atestam diversos autores. Mais tarde, incluí essas cantigas no artigo “Oitocentos Anos de Poesia do Mar em Língua Portuguesa”, que publiquei na Revista Marítima Brasileira, em 1991. Ao preparar o artigo, fiz contato com o Ministério da Educação de Portugal, tendo recebido em minha casa, no Rio, mais de uma dezena de livros sobre o assunto. Em 2008, apresentei esse mesmo trabalho no Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte, em Natal, a convite de seu Presidente, Professor Paulo de Tarso.

Acrescento, ainda, que, na ocasião dessa apresentação, tomei conhecimento da importância da Poeta Zila Mamede, paraibana que foi radicada em Natal, até seu falecimento, cuja obra passei a acompanhar, por sua estreita vinculação com a poesia marinha.

Lucimar.

Natal, 16 de abril de 2014.

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Velho navio

O poema que transcrevo a seguir lembra o Navio Oceanográfico, ex-Navio-Escola, “Almirante Saldanha”, no dia de sua Mostra de Desarmamento, isto é, no dia em que deu baixa do serviço ativo, depois de 56 anos contínuos de serviço ativo.

O poema emprega imagens que devo explicar. 

Somente quem teve a graça de servir nele, navio histórico, veleiro transformado em oceanográfico, que perdeu os quatro mastros – pode compreender inteiramente as referências ao “gajeiro”, vigia do cesto da gávea em veleiros, bem como aos “mastros decepados” e às “manobras a pano”.

Velho navio

ao eterno navio-escola “Almirante Saldanha”

Velho navio,
cisne branco em ventre azul
das águas límpidas do sul.

Quantas vezes partiste,
rasgando o dorso dessas águas,
rútilo velame de punhais
que permanece incólume
ao tempo e à morte.

O grito do gajeiro fere,
súbito,
o teu silêncio ancestral.

Na noite dos teus mastros decepados,
ouço vozes perdidas de manobras a pano
e o vento milenar da tempestade.

Hoje, meu velho Saldanha,
renasces, para sempre.
E, fulgurante pássaro marinho,
retornas à integridade original.

Escrito no Rio, a 6 de agosto de 1990.

Natal, 15 de abril de 2014.

Lucimar.


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