Caminhos

Depois de muito tempo sem publicar, eis um novo poema, que acabo de produzir, inspirado pela viagem de minha amada Edna, a São Paulo, para um compromisso de família.

Na verdade, havia um antigo projeto de poema, que serviu de base para a elaboração deste. Mas a emoção da distância e da saudade promoveu uma nova forma poética.

Caminhos

Quero aprender teus caminhos,
perguntar por onde andas,
descobrir tuas estradas,
percorrê-las todo o tempo…

Quero saber dos teus passos,
de tuas horas e sonhos,
pra onde olham teus olhos
e o que me dizem teus gestos…

Quero ser bom marinheiro,
a conduzir meu navio
para chegar nos remansos
dos teus abraços serenos…

Quero banhar-me de chuva
nas ruas da tua infância
e brincar nas avenidas,
nas calçadas dos teus sonhos…

Quero cantar sob a lua
as canções de tua escolha,
que se cantavam de noite
no crepitar das fogueiras…

Quero dizer mil palavras
que soem como poesia
e que conquistem sorrisos
do teu rosto confiante…

Quero ouvir os teus segredos
que ninguém mais ouviria
e as histórias inventadas
por teu coração ardente…

Quero rezar de mão dada
contigo, junto da cama,
ajoelhados, contritos,
como as avós ensinavam…

Quero, enfim, viver contigo
no aconchego, em nossa casa,
e caminhar teus caminhos
até o final dos meus dias!

Lucimar Luciano

Natal, 31 de julho de 2017.

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Conveses rotos

Faço hoje uma releitura de um poema de paixão, que me é muito caro. Esse poema foi a minha parte na excelente composição de Roberto Lima de Souza, meu amigo, que acaba de ser gravada em CD, aqui em Natal, RN, junto a muitas outras criações do grande compositor, poeta, músico e, a partir de hoje, Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Mas eu quis fazer agora uma releitura radical. Pensando cada frase, cada verso, cada estrofe, como se fosse um poema e, no conjunto, criando a grande emoção de ter sido um homem do mar.

Trabalhei os versos, que ficaram soltos, sem pontuação, para serem também recriados por cada leitor, particularmente aqueles que já viveram no mar, mas também aqueles que têm a alma marinheira, que viaja, que voa, que sente, que ama a poesia.

Aí vai, portanto, este novo pássaro, querendo fazer ninho em seu coração, meu amigo ou minha amiga.

Conveses rotos

voltei de tempestades
cheguei de travessias
vim do oceano
do mar-alto
dos abismos

tenho o corpo ferido em vento e mar
a alma em fúria
o coração em fogo
o peito em dor

marinheiro andante de rotas e derrotas
trago as histórias que vivi de portos e mulheres

eu menino travesso
eu adolescente triste
eu homem desesperado

meus pés têm o lanho de conveses rotos
em navios sem rumo pelos mares da vida

e minhas mãos as marcas de pesadas enxárcias
cabos trançados
espringues e lançantes

voltei de longe
de horizontes e ventos
de madrugadas lentas e manhãs ardentes
e muitas horas de vigília em mastros oscilantes

de noites negras em céu multiestrelado
de plêiades e estrelas solitárias
constelações e galáxias

vim de dunas
de alísios
de praias brancas imensas
litorais ao longe
oceano infinito

vim de noites sem dormir em mar encapelado
navios como nozes jogados entre ondas
naufrágios e balsas
nenhum cais
nenhum porto

e chego aqui em tua casa
em teu porto
em teu cais

e chego coração
alma
peito aberto

na busca do repouso de uma tarde assim,
em brisa mansa e tépido convívio

para saber tua presença
teu silêncio

teu vulto de mulher que me enternece
e encanta

Lucimar Luciano
Natal, 3 de agosto de 2017.

Velho navio

Homenagem ao glorioso Navio-escola e Navio Oceanográfico “Almirante Saldanha”:

Velho navio

Velho navio,
cisne branco em ventre azul
das águas límpidas do sul.

Quantas vezes partiste,
rasgando o dorso dessas águas,
rútilo velame de punhais
que permanece incólume ao tempo e à morte.

O grito do gajeiro fere,
súbito,
o teu silêncio ancestral.

Na noite dos teus mastros decepados,
ouço vozes perdidas de manobras a pano
e o vento milenar da tempestade.

Hoje, meu velho Saldanha,
renasces para sempre.
E, fulgurante pássaro marinho,
retornas à integridade original.

Lucimar.
Este poema foi escrito no dia da Mostra de Desarmamento do “Saldanha”, 6 de agosto de 1990, por mim, seu derradeiro comandante.

Natal, 21 de julho de 2016

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Não deixarei que partas

Não deixarei que partas de mim
tão de repente assim…

Pensavas que eu te esquecia,
que não queria saber de ti,
que tudo estava acabado?

Te enganavas.

Não deixarei
que o ar da noite me embriague a ponto
de eu não sentir teu perfume de mulher,
disposta a tudo perder por mim,

a chorar as lágrimas que a chuva não chorou,
a ventar com a fúria das tempestades
no oceano das tuas angústias…

Não deixarei que partas.

Se deixasse,
não seria eu o marinheiro de inúteis viagens
que aportei em ti como um velho barco
de muitas travessias

e despertei-te do torpor das enseadas chãs,
para cravar-te a âncora de sonho,
na carne de tua alma enclausurada.

Nunca partirás de mim, mulher amada.

Porque temos um norte,
uma bússola, uma estrela,
a dizer-nos o rumo em mar aberto,

abrindo-nos horizontes nunca imaginados,
lúcidos e límpidos de sóis vermelhos de abismo,

de morte e vida,
de dor e gozo,
de pranto e alegria.

Lucimar.
Natal, 18 de julho de 2017.
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Tesouro

Um poema, para hoje.

Tesouro

Uma mulher
é como um tesouro
no fundo do mar.

Descobri-la é descobri-lo.

Os que vão fundo
aos oceanos desse olhar
hão de ficar buscando toda a vida,
sem talvez encontrá-lo:

muitas terão sido as trevas a escondê-lo,
nas entranhas do silêncio abissal.

Por isso, tu,
mergulhador que o tocas,
tem cuidado antes de abri-lo:

tuas mãos cheias de sol
nada sabem
de tesouros
e segredos.

Natal, 13 de julho de 2016,
Lucimar.
A imagem foi copiada da Internet, em: imagenscomtexto.blogspot.comMulher_misteriosa_2

Valentina

Minha neta Fernanda Nascimento espera, para breve, o nascimento de sua filha, Valentina. Estivemos juntos no Rio, mês passado, para que eu fosse apresentado a esse maravilhoso projeto de vida.

Em homenagem a Valentina, minha bisneta, que chega dez anos depois do meu primeiro bisneto, Guilherme Rech, compus um pequeno poema, para saudá-la, em sua próxima chegada.

Junto, uma foto que tiramos, eu e Fernanda, na casa de meu filho Mauro e minha acolhedora nora, Adriana.

Valentina

Por essa impressionante multiplicação da vida
vai chegar Valentina.

Porque a Vida surge
do âmago da terra
e dos animais
e das gentes
vai chegar Valentina.

E ela vem chegando
pra responder à chamada
da escola do mundo,
que já não pode viver sem ela,
que palpita,
que suga o sangue,
que cresce
no seio de Fernanda.

Vem, Valentina,
estamos todos
esperando por você!

Lucimar.
Natal, 3 de julho de 2016.

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